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Lactose-Free

In that maze of trolleys, Sarah finally managed to make her way back to her father carrying a small piece of cardboard wrapped in a hard plastic cover. The package held a little pink lip balm stick with, obviously, one of those Frozen characters printed on it. ‘I only pray bloody Disney don’t make another singing movie’, sounded the grumpy voice in his head. ‘As if it’s not enough to make us play the CD on repeat, they bombard us with merchandise! I’ll go crazy and bankrupt if another of those movies is released!‘.

‘Can I have it, daddy?’ Sarah asked, with a charming smile.

‘Hmmm… I don’t know honey. Do you really need it?’ he replied, even though he knew a 4-year-old wouldn’t know what she needs.

‘I do, daddy, pleeease’ begged the girl.

He stood there, thinking about what to say. In these situations, he would always tell the girl to ‘Go ask her mum’. He knew his wife would never take Sarah to the supermarket and if so, she would terribly avoid the cosmetics and pharmacy section. She would always convince the girl to choose a healthy snack or an educational colouring book – preferably without any Frozen characters in it, which meant that this was his chance to make his daughter happy and piss his wife off at the same time! What a great opportunity!

They were already angry at each other anyway, after that breakfast table argument on the Lactose-free milk, which resulted in him having to do the groceries; ‘So he could pick the damned milk he wanted’. They have been fighting since day one, obviously. Every couple does. However, now it just seemed as if any tiny thing could become a reason for a matrimonial Armageddon. From the laundry powder brand to the colour of her toothbrush. They were both so defensive these days, so suspicious…as if they were only waiting for the other one to pounce.

He hated to think that they were becoming ‘those’ couples. ‘Those’, who sit in a restaurant for hours, without exchanging a word, like complete strangers. ‘Those’, whom the only thing they have in common is their children. However, at the same time, he couldn’t remember how he felt before it all turned into this cold war. His good memories were all vanished and exchanged for angry and tedious ones. Anger was still pumping in his veins.

‘How much is it?’ Jack asked.

‘It’s only $2 dollars…’ said the girl.

‘$2 dollars?! I wish your mother had such cheap taste for makeup…’ mumbled the man, as he agreed to attend to his daughter’s wish.

Sarah held that precious little piece of pink plastic all the way to the car with both hands, amazed with her new acquisition. Jack was wondering what the joy in it was. How could she be so happy because of a lipstick? ‘Women! Complicated since they’re born…‘ he thought, rolling his eyes to the scene.

As they drove back home, Jack could hear the noises of Sarah trying to open the plastic package. He watched her from the mirror, as she forced her tiny hands against the hard plastic cover. She had this habit of sticking her tongue out when she was using all her strength, just like her mother. The thought of his wife brought back the tension of getting back home, to another possible conflict. He could drive in circles all day long if needed, just to avoid that.

‘If I arrive by the time she’s at the gym, I won’t have to even see her. And, by the time she’ll be back, I’ll probably be having a nap on the sofa…‘ Jack’s mind was working full steam ahead ‘Or, maybe, I could just make up a business trip next week and lock myself in a hotel room…Or…wait a minute! What’s that smell?!’.

He got the goosebumps all over his arms and neck, the same way he did when he first felt that scent. It was strawberry. Glittery-pink-sticky-strawberry, to be more precise. The tension, the excitement, the heartbeat raising, the hands sweating. It was as if he had been transported back to that night and was watching it all in slow motion, as he stood at her doorstep to say goodbye. Their eyes met and she shot him a smile. He stepped forward and she didn’t move an inch away. He held her by her waist and ran his fingers through her hair. As their lips touched, they felt as if the ground had disappeared. Driving back home that night, still feeling leftovers of that sticky and glittery lipstick on his beard, he was sure he would marry that strawberry-lips girl one day.

Then, he remembered. The thrill, the excitement, the uncertainties of falling in love. The vision of a brand new future with that person, full of opportunities and new experiences. As he parked in front of the house, he kept asking himself ‘What could be better than that?’. Still trying to find an equivalent moment in his memory’s ‘archived files’, he opened the back door to help Sarah out, as she turned to him, with lipstick all over her face.

‘Do I look pretty, daddy?’ she asked with a smile

He looked at her tenderly, unable to refrain from smiling. ‘You do, honey. Just like Elsa’.

Her face instantly lightened up. She threw her little arms around his neck, gave him a kiss on the cheek and rested her head on his shoulder.

‘I love you, daddy’.

And there it was. Nothing could be better than that. Better than being kissed by the girl you love the most, who is the ‘product’ of the love between you and the woman you love the most. Yes, the lipstick made him realise that he still loved her after all. He walked into the house with anticipation, searching for her. She could sense something unusual when their eyes met. He stepped forward and she didn’t move an inch away. He held her by her waist and ran his fingers through her hair. As their lips touched, they felt as if the ground had disappeared. Jack was, then, sure about one thing: He could drink all the Lactose-free milk in the world if needed, in order to keep those strawberry kisses.

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Banco de Trás

As luzes da cidade rabiscam a moldura da janela do taxi. No banco de trás, encaramos em silêncio aquela figura constantemente em transformação. Verde, amarelo, vermelho. As cores piscam e meus olhos não conseguem formar imagens, somente vultos na madrugada úmida de maio.

Desde que dei meu endereço, o motorista não falou uma palavra – e sou extremamente grata a ele por isso. Sei que ele nos enxerga pelo espelho retrovisor, mas eu não me importo. O julgamento alheio é uma das constantes da vida. Isso não me incomoda mais, pois o que tenho contigo é inevitável; não consigo segurar. Essa noite meu assunto é contigo, aqui no banco de trás.

As garrafas de vinho me impedem de identificar em que rua estamos. Meu corpo e alma não estão em nada do que aconteceu ou vai acontecer fora desse carro. Parece que tudo se resume a esse momento. É agora ou nunca. Tu sussurras no meu ouvido, borra minha maquiagem, bagunça meu cabelo; e meu corpo reage de imediato. Inevitavelmente, acabo soltando um gemido ou outro. Sei que o motorista está acostumado com esse tipo de passageiros na madrugada, mas não me atrevo a olhar para o espelho retrovisor.

Quando finalmente me solto por um segundo de ti, consigo me situar e percebo que estamos a duas quadras do nosso destino final. Mas não estou pronta para desembarcar e, por isso, peço para o motorista dobrar à direita – mesmo sob protestos do profissional -, para ganhar mais tempo. Minha cabeça gira, pois tenho que tomar uma decisão: desembarcar sozinha ou te levar comigo. Tu, no entanto, envolves cada poro da minha pele e começo a aceitar que – na verdade – não tenho escolha. É caso perdido.

Somente quando o carro para em frente ao meu portão e o motorista vira para trás, é que nossos olhos finalmente se encontram. Os dele, bons e generosos, encaram os meus, molhados e vermelhos. Meu queixo treme um pouco e mais um gemido sai pela minha boca; agora um soluço completo, não reprimido como os anteriores. Ele me alcança um lenço e, sem tirar os olhos dos meus, diz: ‘Lute e faça de tudo para não decepcionar a ti mesma, pois é muito provável que todas as outras pessoas que cruzarem teu caminho irão te decepcionar. Tu tens o poder de decidir o que é bom para ti e de abandonar o que te destrói’. Congelo com aquelas palavras e só consigo balançar a cabeça positivamente. Por essa eu não esperava.

Fico ali, encarando-o com os olhos arregalados, tentando absorver as palavras dele. Minha visão turva torna-se nítida rapidamente e posso jurar que ouço o ‘plim’ da ficha caindo dentro da minha cabeça. ‘Eu tenho escolha, afinal! Eu não preciso carregar comigo o que me faz mal. E se eu sei o que me faz bem, não há desculpa para levar um peso nas costas’, penso com meus botões. Estou tão encantada com a descoberta, que tenho vontade de abraça-lo. Constrangido com o silêncio – ele certamente não ouviu o ‘plim’ – e percebendo as minhas intenções afetivas, ele rapidamente se vira para o volante e fala: “São 16 dólares. Dinheiro ou cartão? ”.

Desço do carro e te deixo para trás. Se eu continuasse a te carregar, eu nunca me perdoaria. Deixo ali a mochila de arrependimentos, mágoas e inseguranças que vinha carregando nas costas há anos; um peso que me impedia de ir mais longe. Consigo, finalmente, caminhar mais leve e com a coluna ereta.

A vida é uma viagem cheia de surpresas. Às vezes ficamos dando voltas na quadra, tentando uma vaga para estacionar. Em outras, a nossa música favorita toca no rádio e nos faz dançar no meio de um engarrafamento caótico. Só não esquece, guria, que quem escolhe o teu caminho e segura o volante é tu mesma. Não fica abanando para tentar pegar carona no banco de trás da viagem dos outros. Pega o mapa e traça a tua rota. Ou simplesmente pega a estrada e vê aonde ela vai te levar. Mas não esquece dos ensinamentos do sábio taxista: tu tens o poder de escolher não decepcionar a ti mesma. Enche o teu tanque de amor próprio e determinação que, com certeza, tu vais longe.

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Eles

Ela sempre teve o sorriso frouxo.
‘Exibia’ seus dentes perfeitamente parelhos
para quase todos os que cruzavam seu caminho.
Os primeiros elogios que recebia de um desconhecido
nunca eram a respeito de seu corpo, de seus
olhos ou de seu cabelo. Eles sempre começavam
com “Você tem um sorriso muito bonito”.

Ele sabia fazer piada.
Tinha um senso de humor refinado e quase
sempre arrancava risadas de quem o rodeava.
Não se impressionava muito com sorrisos,
pois já estava acostumado a tê-los ao seu dispor.
Mas um dia isso mudou.

Seus olhos se encontraram e ela sorriu.

Ele gelou. Contou uma piada nervosa.

Ela não entendeu direito, mas riu mesmo assim. E sorriu.

E ele prometeu que faria de tudo para manter aquele sorriso no rosto dela.

Com ele, ela conseguia sorrir com os olhos, sem mostrar nenhum dente ou mover um músculo sequer.
Com ela, ele sentiu o poder de um sorriso vindo do peito, que fazia ouriçar cada pelo do seu corpo.
Ele completava os dias dela e ela iluminava as noites dele.
Ela jorrava e transbordava o mais puro afeto, mas…

…ele não deu pé.

E ela secou.

Hoje os seus olhos se encontraram novamente.

Ele deu um sorriso esperançoso, mas envergonhado, por não ter cumprido sua promessa.

Ela
tentou
sorrir
de volta,
mas a dor
não
deixou.

E, então, ele se afogou em arrependimento…

…no choro daqueles olhos que, um dia,
sorriam para ele.

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Carcaça

Nunca pensei que fosse receber a notícia dessa forma, muito menos nesse lugar. Um homem se aproximou, me entregou um papel e me disse “Ele está morto”. Assim, como se estivesse fazendo um comentário meteorológico; com um tom banal que me inquietou. O mensageiro percebeu minha expressão de ultraje e deu de ombros, como quem diz ‘Ninguém gostava muito dele mesmo. Que diferença faz?’.

O sol estava se pondo, o céu era cor de rosa, e o mar trazia ondas serenas. Atirei-me na areia gelada, rasguei aquela folha e enchi os pulmões de ar para gritar, mas não emiti um som sequer. Meu rosto se contorceu em um choro, mas lágrima nenhuma molhou a areia. Fiquei alarmada; não entendia a falta de reação do meu próprio corpo. Ao invés de sentir um aperto no peito, eu sentia um vazio.

Justo eu, que sempre estive de prontidão para estar perto de ti, hesitei em decidir se pegava um avião para te velar. E não era por receio de te ver morto; por medo de não suportar. Era porque não sabia se tu merecias todo o esforço. Porque, além disso, eu não saberia onde me posicionar na cerimônia: ao lado do caixão? Em meio à multidão? Ao longe, sem que ninguém me notasse? Eu não conseguia entender qual posição eu ocupava na tua vida, muito menos na tua morte.

Uma força, então, – como a de uma mão gigantesca me levantando pela gola da camisa – me fez levitar sobre o quadro. Ali de cima, observando tudo de fora, não conseguia reconhecer aquela mulher jogada na areia. Eu me via confusa, aflita, dividida, insegura. Minha vontade era de sacudir aquela pessoa e de gritar: “ACORDA!”; mas a “mão” continuava a me erguer, mais alto, até que tudo virasse apenas um pontinho na imensidão.

Acordei ofegante, olhei para o lado e – para o meu alívio – te vi dormindo; respirando tranquilamente. Te observei por um tempo, até minha visão ficar turva e sentir as lágrimas quentes escorrendo pelas minhas bochechas. Comecei a recapitular a nossa história, tentando encontrar pistas. Algo que me fizesse entender de onde vinha tudo aquilo, ou melhor, para onde tudo o que era nosso tinha ido. Não achei nada. Somente um filme sem sequência, que seguia a ordem inversa dos avanços tecnológicos: começava vibrante e em HD e terminava aqui – nessa cama – em um mudo preto e branco.

Noite passada sonhei que tu tinhas morrido e despertei para algo morto dentro de mim. Como uma cobra que troca de pele, deixei a carcaça naquela praia. Deixei lá o que não me servia mais; o peso de sentimentos que só me prejudicavam e de incertezas que me faziam andar em círculos. Sequei as lágrimas e levantei, impulsionada pela mesma força que me ergueu enquanto adormecida e que agora, acordada, me colocava novamente firme no chão. Bati a porta atrás de mim e deixei as chaves lá dentro; para não ter perigo de voltar para buscar o que não me prestava mais.

Noite passada meu sonho abriu meus olhos.

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Ontem

Ontem eu levei uma surra e meu peito é o que mais dói hoje. Ontem eu vi o meu passado e um futuro que poderia ter sido meu. Ontem era para ser só mais um sábado ordinário: ressaca matinal, brunch e um cochilo no sofá. Mas não foi e me fez perceber que nunca mais será.

Saí do restaurante com meu enorme prato de bacon, ovos e feijão pesando no estômago. Geralmente eu me arrastaria até o carro e voltaria para casa, mas ontem – ah, ontem! – eu virei à esquerda e caminhei até a orla do rio.

O vento batia na água, criando pequenas ondas na superfície marrom. O céu estava nublado e a única cor que se destacava naquela manhã de outono era o verde do gramado que acompanhava a margem do rio. Continuei caminhando mais um pouco, até que, de repente, senti meu estômago revirar – e não tinha nada a ver com o bacon de meia hora atrás.

Há 10 anos eu não via ‘aquilo’, mas era impossível confundir ou esquecer. Um sorriso que iluminava qualquer dia cinzento e fazia os olhos dela ficarem pequeninhos. Aquele sorriso que vinha do peito e transbordava em cada poro daquela pele macia. Parei tão abruptamente na calçada que quem vinha atrás esbarrou em mim e reclamou algo, mas eu não ouvi.

Me sentei no primeiro banco que encontrei e respirei fundo. Ela ainda estava a uma distância segura; não tinha me visto. Olhei para o chão, pensando se deveria me aproximar. Olhei para ela de novo. Não havia mudado muito desde a última vez em que a vi. Na verdade, apesar de alguns poucos quilogramas a mais e talvez uma mínima ruga no rosto, olhar pra ela fazia com que me sentisse dez anos mais novo. Levantei-me e caminhei, impulsionado pelo mesmo magnetismo inexplicável que sempre nos uniu, em direção a ela.

Foi somente quando abri o portão do playground que ela me viu. Senti seus olhos arregalarem e seus músculos enrijecerem. Aproximei-me com um sorriso e ela relaxou um pouco, abrindo os braços e dando um beijo no meu rosto. Os pelos da minha nuca ficaram em pé quando senti seu cheiro e tive que me afastar rapidamente. Ficamos alguns segundos em silêncio, mas logo quebramos o gelo.

Conversamos amenidades por um tempo, mas não lembro ao certo o conteúdo das palavras trocadas, pois minha cabeça estava em outro lugar, há anos atrás, quando nos conhecemos. Quando eu achava que teria tempo para tudo e que, me prender a alguém era me privar da minha liberdade. Quanta burrice! Agora, com dez anos a menos à minha frente, aqui estou eu, sozinho e acorrentado a uma realidade que se resume a mim e ao meu sofá. Preso aos meus medos.

Uma menina, então, veio ao nosso encontro e agarrou a perna dela. Aquelas mesmas pernas que eu um dia também agarrei, com paixão e devoção. Ela me olhou, me lançou um sorriso tímido e, apesar de seu cabelo ser loiro, eu vi ali uma miniatura da sua mãe. E eu já comecei a amá-la por isso. Assim como comecei, anos antes, a amar a dona daqueles genes que produziam aquele sorriso indescritível. Comecei, mas nunca me permiti ir além.

Fui apresentado à menina como ‘um velho amigo da mamãe’ e ela me cumprimentou, abanando uma das suas minúsculas mãos. Observei o quadro: as duas ali, na minha frente, irradiando algo que eu não conseguia explicar, mas que enchia meu peito com um calor bom. Mas eu não me encaixava naquele quadro. E foi aí que eu senti o primeiro soco: eu não pertencia àquela figura, mas poderia ter pertencido.

A garotinha se aproximou e começou a conversar comigo, enquanto o celular tocava na bolsa da minha ‘velha amiga’. Ela atendeu dizendo “Oi, amor!” e o tom na sua voz era cheio de ternura e carinho. Eu nunca deixei ela me chamar de “amor”. Aquilo me assustava, assim como o que eu sentia por ela. Quando ela desligou, com um “Te amo. Te vejo em casa”, outro soco me atingiu.

‘Em casa’. Engraçado como um pronome possessivo, ou a falta dele, possa fazer tanta diferença. Ela não disse, ‘minha casa’, ou ‘sua casa’. Para eles, só existe uma casa. Enquanto eu, com 40 anos, sempre tive a minha casa e só. Nunca a nossa ou, quem diria, simplesmente “a casa”.

Ela interrompeu meus pensamentos, dizendo que precisava ir embora, mas que tinha sido muito bom me rever. A garotinha, Olivia, acenou mais uma vez e sua mãe apertou minha mão. Eu agradeci em silêncio por não ter sido mais um abraço, pois eu não sei se eu suportaria. Seria nocaute.

Voltei para casa, me afundei no sofá e aqui estou, desde ontem- ou melhor, há mais de 10 anos. Virei a noite repassando o reencontro, as lembranças que permaneciam mesmo depois de uma década e me revirando em arrependimento. Ela compartilhou a cama, a mesa e seus sonhos comigo. Ela se entregou de verdade, me estendeu a mão e me deu a chance de ser aquele que, hoje, escuta “Te vejo em casa” ao telefone. E eu não dei valor.

Ontem eu virei à esquerda e, desde então, tudo mudou. Descobri que ganhei na loteria há 10 anos atrás, mas rasguei o bilhete e joguei fora. Quem me dera saber, naquela época, o que entendi ontem. Se assim fosse, ontem seria diferente.

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Carta de Amor

Meus queridos filhos,

Eu ainda não conheço vocês, mas já os amo. Nunca olhei nos seus olhos, mas às vezes já sinto uma saudade de vocês, como se, de alguma forma, eu só esteja esperando para reencontrá-los. Vocês são um dos meus sonhos e muito do que faço hoje é para que eu esteja preparada para recebe-los no futuro.

Ultimamente venho pensando muito em vocês, pois ando preocupada.

Às vezes parece que quanto mais gente eu conheço, mais sozinha eu me sinto. Parece que as pessoas não conseguem sentir as coisas à sua volta. Parece que os relacionamentos acontecem por conveniência. Parece que ninguém está disposto a abrir mão do seu umbigo. Parece que ninguém se deixa ser vulnerável.

A impressão que me dá é que ninguém se importa. Que as pessoas entram em um marasmo cíclico e desistem; simplesmente acham que a vida é assim e ponto. E ultimamente ando tão apática que tenho medo de ter sido sugada por esse buraco negro da conformidade.

Afeto parece ter se tornado o próximo item em extinção da face da terra. As pessoas parecem não saber como agir quando se deparam com uma demonstração de zelo e carinho. E como é que eu me encaixo em um mundo assim? Eu, que sinto tudo com 120% de intensidade; que tenho necessidade de expressar o que brota do meu peito, principalmente se o sentimento é puro e bom.

Alguns podem achar que sofro mais por ser assim. Talvez estejam certos, mas posso garantir que amo mais também e isso compensa o sofrimento. O amor é a única “coisa” que nos iguala como seres humanos. Independente de religião, raça, classe social: todo mundo ama alguma vez na vida.

Por isso, meus filhos, amem de corpo e alma. Seja o seu cachorro, a sua professora ou a lua. Demonstrem afeto e vocês receberão em troca. Caso contrário, simplesmente tenham a certeza de que, no final, quem perde é aquele que não sabe retribuir, pois não se permite amar, com medo da dor da perda ou da rejeição. Amem, no entanto, acima de tudo e de todos, o reflexo no espelho. E nunca abram mão desse amor, pois é ele que nos move e nos permite amar todo o resto.

O amor é poderoso. Ele transforma, multiplica-se e dissemina-se rapidamente. Eu acredito no poder transformador que ele tem e pretendo provar isso. Vou ensiná-los a amarrar os sapatos, a comer de boca fechada e a decorar a tabuada do 6; mas a minha maior missão é ajuda-los a serem pessoas amáveis, generosas e boas. Nós, eu e vocês, provavelmente não conseguiremos mudar o mundo inteiro, mas, com certeza, mudaremos o mundo à nossa volta.

Nunca esqueçam que vocês têm o meu amor para sempre, desde já.

Um beijo,

Mãe.

 

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36, mas não serve

É amor à primeira vista. O holofote da vitrine destaca aquele par de calçados, ofuscando os demais. Você sente suas pupilas dilatando e o brilho dos seus olhos aumentando. “Eu quero!”, você pensa, “É o sapato mais lindo que eu já vi”. Então, você lembra daquele vestido que vai combinar direitinho e já se enxerga com ele. Caminhando, ou melhor “flutuando”, sob os olhares de admiração de quem passa. Em seus devaneios, você desfila pelas ruas com seus sapatos encantados.

Alguém esbarra em você e te traz de volta para o vislumbre da vitrine. Seu sentimento de amor, agora, se transforma em pânico: “E se não tiver meu número?! E se for muito caro?! E se…”. Você quer muito aquilo, mas ainda não sabe se está ao seu alcance. Com um frio na barriga e as pernas bambas você entra na loja e pergunta se eles têm um par 36 daquele sapato da vitrine. A vendedora diz que aquele é o último par e dirige-se rumo ao objeto desejado para conferir a numeração.

Seu coração para por um segundo. O último par da loja nunca é um bom sinal. A vendedora está de costas e você não consegue ver seu rosto. A ansiedade toma conta e você começa a andar na direção dela. Até que ela se vira, com uma expressão suave e um sorriso: é 36! Seus músculos relaxam e seus batimentos cardíacos lentamente voltam ao normal. Você calça sua nova paixão e dá três passos até a o espelho: perfeito!

“Esse é o sapato da minha vida!”, você pensa. Os outros clientes e a vendedora comentam o quanto aquele modelo é bonito e lhe serve perfeitamente. Alguns até olham com certa cobiça e perguntam à vendedora se existe outro par na loja. Não, esse é o último. E vai ser seu.

Mais uma vez, então, você é tomada pelo medo: “E se for muito caro? Será que eles parcelam em 20x?”. Você caminha os mesmos três passos de volta ao sofá, respira fundo, e cruza a perna esquerda sobre o joelho direito para ler a etiqueta com o preço na sola do sapato. O valor está consideravelmente acima do seu orçamento, mas você está disposta a pagar o preço. Você vai até o caixa abraçada no seu novo amor. Na hora de efetuar o pagamento e vendedora lhe informa que o par tem 50% de desconto. A sua vontade é de pular, gritar e abraçar a moça. Ele tinha que ser seu; estava só te esperando.

Você chega em casa e abre lugar na prateleira para ele, de preferência que fique na altura dos seus olhos, para que você possa admirá-lo de vez em quando. À noite você sai com eles e sente-se maravilhosa. Após uma hora, no entanto, você começa a ver estrelas. De dor.

Não era para ser assim. Na loja eles pareciam tão confortáveis. O brilho nos olhos, o número certo, o desconto…A relação de vocês foi perfeita desde o início. Eles não deveriam estar te machucando assim. Você chega em casa, fica descalça e devolve o sapato à prateleira com uma tristeza no peito; como um amor não correspondido.

Na semana seguinte, teimosa, você dá mais uma chance ao par de saltos agulha. E, novamente, ele te decepciona. Ele, então, continua reinando na prateleira, servindo como objeto de decoração. Você passa por ele todos os dias e aquele amor vai virando mágoa, raiva, ressentimento. Você calça eles mais algumas vezes e fica parada na frente do espelho. Às vezes até arrisca os seis passos imunes à dor, na esperança de que eles tenham milagrosamente melhorado, mas logo eles começam a apertar e você volta a botar os pés no chão. Você fica inconformada. Como pode algo tão bonito te machucar tanto?

Algumas coisas na vida simplesmente não cabem. De nada adianta um sapato lindo, se ele te aperta, te dá bolha e te faz andar de chinelo por três dias seguidos. De nada adianta comer aquele bolo que você adora, se ele vai te dar uma dor de barriga no dia seguinte. De nada adianta um amor, se ele não te respeita e não te deixa firme no chão.

Não vale a pena conviver com o que te machuca. Por isso, guria, pega esse sapato, guarda na caixa e deixa no fundo da prateleira mais alta, longe do alcance dos teus olhos. E continua à procura de um sapato que seja teu número e que, ao mesmo tempo, te sirva.

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Relíquia

E hoje eu estava em casa, rodeada pelos meus móveis da Ikea, e me peguei pensando nele.

Uma estranha vontade de abraça-lo passou pelo meu peito e me deparei querendo conversar com ele, sentir seu cheiro, trocar confidências. Foi um sentimento esquisito, mas tive a impressão de que ele me conhece melhor do que ninguém, pois sempre esteve lá.

Lembrei as inúmeras discussões que o bendito causou. Do meu pai revirando os olhos e dizendo para minha mãe jogar aquilo fora; que não tinha espaço em volta da mesa por causa do tal armarinho azul. E, então, a mãe já batia o pé e dizia o quanto ela amava aquele armário, que ela nunca iria se desfazer dele, que ele não era azul originalmente e, então, ela já engatava a famosa história da relíquia.

Tudo começou na casa da minha avó materna, quando ela ganhou (se não me engano) o tal armário no Clube de Mães. Por mais que tenha ouvido o relato milhões de vezes, não lembro ao certo se ia para o lixo ou só estava sem serventia, mas sei que minha mãe arrecadou o armário de portinhas de vidro para ela. Naquela época ela e meu pai ainda eram namorados e ela sempre contava que os dois reformaram a peça juntos, e o quanto ela gostou de fazer aquilo. Foi aí que o armário entrou para a família e passou a ser parte da nossa história. E ele ainda não era azul, era bege.

Lembro que na casa amarela ele ficava na sala, pertinho do toca discos. Toda vez que a gente dançava e pulava por perto o chão de madeira tremia, a agulha do toca discos vibrava, o pai lançava um olhar ameaçador (porque ia riscar o disco!) e dava para ouvir as taças e as portinhas de vidro do armário balançando. Parecia que ele dançava com a gente. Até hoje esse som me faz lembrar aquela casa. E nos vídeos dessa fase tão querida das nossas vidas ele está lá atrás, observando e absorvendo todos esses momentos, quietinho, mas ali.

Depois fomos para o apartamento e foi nessa ocasião que ele ficou azul! O pai deve ter pensado que ia se livrar da mobília, mas não deu outra: a mãe mandou fazer uma pátina (técnica de pintura muito utilizada na época – pelo menos lá em casa) e ele foi cuidadosamente realocado para a cozinha. Não demorou muito e nos mudamos de novo e ele foi parar no lugar onde está até hoje.

Ali ele presenciou os nossos almoços e jantares em família, em que a gente ficava conversando depois da comida. Era um tempo do dia sagrado para nós e a minha hora favorita do dia: sentar e conversar com as pessoas que eu mais amo no mundo. E ali a família estava completa: pai, mãe, irmã, eu e o armário azul.

Acredito que nenhuma mobília está há tanto tempo lá em casa quanto ele. Ele foi o único que permaneceu; do qual ninguém conseguiu se desfazer. Isso porque, se esse armário falasse, poderia contar a nossa história. Porque cada poro da madeira que o sustenta guarda uma lembrança. Porque não tem como olhar para ele e não recordar a quantidade de momentos, bons e não tão bons, que ele presenciou.

E agora eu olho para a minha casa, que mais parece um catálogo da Ikea, achando tudo tão sem graça e desejando que, no futuro, eu tenha um armarinho azul para admirar e para me fazer recordar os momentos que ainda estão por vir.

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Palco

Julieta já estivera naquela situação outras vezes. Sentia sempre a mesma sensação e por isso não entendia por que aquele frio na barriga ainda insistia em alojar-se ali. Suas mãos, que suavam a cada minuto mais, apertavam sua barriga, tentando controlar o enjôo que sentia. Seu consolo era a luz esmaecida do lugar, que permitia que ela sentisse tudo aquilo sem ninguém perceber.

O murmurinho de pessoas falando aumentava gradativamente, à medida que a hora se aproximava. Julieta estava apreensiva. Tudo havia dado certo no ensaio. Nada poderia sair errado.

A sirene soou pela terceira vez e seu coração parou por um segundo. As cortinas começaram a abrir. Julieta respirou fundo e entrou no palco. No momento em que foi cegada pelos fortes holofotes sentiu todo o medo misturar-se com um prazer inexplicável.

O coração batia forte em seus ouvidos, mas as palavras saiam com fluência e ritmo. Suas pernas tremiam levemente, mas seus gestos eram firmes. Sua voz ecoava no teatro silencioso, que prendia todas as suas atenções na mulher que vos falava.

O espetáculo ia muito bem. A platéia reagia aos diálogos e Julieta sentia-se, agora, mais confiante.

Após sua última fala, Julieta encaminhou-se para trás da cortina, de onde esperaria até sua próxima cena. Na metade do caminho, no entanto, enroscou-se em seu vestido comprido e caiu de joelhos no palco.

Houve um silêncio no local. Ninguém sabia se levantava para ajudá-la ou se a deixava erguer-se sozinha.

Julieta sentiu tudo rodar. Seu rosto ficou quente e lágrimas quiseram brotar de seus olhos. A atriz, no entanto, não as deixou saírem. Ao invés disso, levantou-se com um sorriso no rosto e caminhou lentamente, de cabeça erguida, até a coxia.

Fora do alcance dos olhares alheios, Julieta sentiu-se mais tranquila. A vergonha havia ido embora, deixando espaço para a realização.

Estava realizada por ter lembrado suas falas e por ter prendido a atenção da platéia, mas, principalmente, por não ter fraquejado no momento em que algo deu errado. Estava orgulhosa de si mesma, por ter sido corajosa em posicionar-se em frente àquelas pessoas e por ter sido forte o suficiente para erguer sua cabeça novamente.

A vida não nos permite ensaios. Por mais que a planejemos, nunca conseguiremos com que tudo saia exatamente de acordo com o script. Falas serão esquecidas, tombos e rasteiras virão e, muitas vezes, teremos que improvisar a cena. A verdadeira arte está em conseguir, apesar dos imprevistos, fazer da sua vida um espetáculo inesquecível.

“Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”. – Charles Chaplin.

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Aqueles Braços

                Não me lembro da primeira vez que aqueles braços me seguraram. Braços protetores e quentes. Braços “mágicos” capazes de consolar e de curar qualquer dor. Dizem que era um dia quente e iluminado; especialmente encomendado para clarear meu caminho e acender meu olhar.

                Coração havia voado e, naquele momento, apresentaram-me o sol de um novo amor que até hoje brilha (para sempre). Flores nos rodeavam, mas, à medida que fomos criando mais contato, percebia que a flor mais bela e cheirosa era a que me embalava.

                Seu calor, sua voz, seu carinho, seu zelo, sua preocupação, fizeram-me quem sou hoje.

                “A melhor de todas” encheu minha vida de força, de magia, de sonho, de fantasia e de alegria de viver. Era ela a minha companheira quando me encontrava em uma tempestade em alto mar, em um navio afundando e cheio de crianças. É ela que ainda fica acordada à noite quando estou doente. É a ela que confio meus segredos.

                Confio nas mãos que, muitas vezes já afagaram meus cabelos e que sempre adoçam um pouco mais o meu café. Confio na voz que me tranqüiliza desde que “me conheço por gente”. Confio nos olhos que sempre confiaram em mim. Confio no amor. Confio nos braços que nunca me deixaram cair ao chão e que sempre me apoiaram, ajudando-me a seguir pelo caminho mais correto.         

                Espero um dia poder ter o “poder” desses braços. Desejo ter a chance de depositar em um ser todo o amor incondicional que foi depositado em mim. Anseio em poder ensiná-lo a amarrar seus cadarços e dar seus passos sozinhos, ajudando-lhe a desatar os nós que o tempo talvez traga. Quero partir deixando a herança que me foi deixada eternamente e que dinheiro nenhum é capaz de pagar: o respeito, o caráter e a certeza do amor.      

              

Ao Que Vai Chegar – Toquinho     

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Esquina dos Corações (re)Partidos

Plec, plec, plec, plec…”

                Salto alto nunca havia sido o forte de Gabriela e agora, mais uma vez, a menina demonstrava sua (falta de) habilidade ao utilizar o “instrumento”. Suas amigas, que apresentavam muito mais destreza em cima dos “andaimes”, caminhavam rápido, obrigando a garota a dar alguns pulinhos de vez em quando para conseguir acompanhar seu ritmo. Para piorar a situação, o sapato estava começando a criar-lhe uma incômoda bolha no calcanhar esquerdo. Tão incômoda quanto o aperto que sentia no peito. E a noite estava apenas começando.

                Uma noite de outubro. Nem quente, nem fria; simplesmente agradável.

                O telefone de Thiago havia tocado há 10 minutos e o garoto já estava pronto para a balada para a qual haviam lhe convidado. Precisava desesperadamente sair; encontrar pessoas. Vestiu a camisa que havia ganhado de aniversário e fez a barba. Olhou-se no espelho: estava pronto. Mas será que estava mesmo?

                Uma buzina soou lá fora e Thiago correu para o carro. E para tentar fugir do que sentia.

                Que droga de sapato apertado! E essa calçada cheia de buracos também não ajuda! Quem me dera eu pudesse vir de pantufas! Ai, não sei por que eu deixo as gurias me arrastarem pra esse lugar. Eu nem queria sair de casa, mas elas sempre me convencem. Nossa! Abriu um barzinho novo… Bem ajeitadinho até. Meu Deus! Que cara mais bagaceiro que “tá” me encarando ali da mesa do boteco. Desvia o olhar, Gabriela! Anda mais rápido! Opa! Cuidado pra não cair do salto e…

            Putz! Esse cara dirige muito mal! Nem sei como que a gente chegou vivo aqui. Bah, hoje eu vou encher a cara. “Tô” precisando. Vou gastar tudo em coisa forte. Nossa! “Tá” quente hoje! Será que eu passei desodorante?! Passei, passei. Ainda bem. Deixa eu pensar: R$70,00, com a dose da tequila a R$10,00 dá pra tomar umas… “Peraí”, 70 dividido por 10 é… Ah… Dá pra ficar bêbado. Olha! Não tinha visto que tinha aberto esse barzinho. Coisa de playboy isso aí. Aposto que…

                Gabriela estava voltando, rumando para o Sul, enquanto Thiago vinha do Leste. No exato momento em que o garoto resolveu mudar seu rumo e seguir em direção ao Norte, a menina cruzou seu caminho. Mais uma vez. E ali, naquela esquina, os dois entenderam o que cada um significava para o outro.

                – Oi. – disse Gabriela, sentindo as pernas vacilarem.

                – Oi. – disse Thiago, desejando nunca ter saído de casa.

                E continuaram caminhando. Cada um na direção que havia escolhido.          

                Droga! Eu senti que ia encontrar ele hoje. Nossa! Ele ainda surte efeito em mim. Respira Gabriela! Ou tu vais ter um ataque cardíaco aqui. Adorei aquela camisa dele… Será que ele vai se encontrar com alguém? E se for? Ai, ai, ai… Eu não “tô” me sentindo muito bem…

            Putz, cara! Eu não devia ter saído de casa. Ela estava tão linda… Deu até pra sentir o perfume dela. Ah, meu! Por que essa guria faz isso comigo? Eu aqui, fazendo de tudo pra esquecer, e ela me aparece toda linda e toda feliz e cheia de amiga solteira. Não posso deixar ela solta assim. Ela é boa demais pra esse bando de bagaceiros que estão por aí. Tenho que ir lá!   

                Depois daquele encontro, Gabriela e Thiago deixaram-se guiar pela força que rege, ilumina e faz os nossos dias valerem a pena. Somente o coração sabe o caminho certo a seguir, mesmo que, às vezes, ele pareça o mais longo. Não importa quantas direções a rosa dos ventos nos ofereça, não cabe a nós decidir onde a estrada acabará.

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“There’s no place like home”

                  As luvas que envolviam as suas mãos não eram suficientes para esquentá-las do frio daquela manhã cinzenta. O ar gélido que enchia seus pulmões ardia toda a vez que passava por sua garganta.  Carolina já estava arrependendo-se de ter saído de casa. O dia parecia estar tão congelado quanto a neve que havia caído na noite passada. O silêncio chegava a ser mais alto que seus pensamentos. Tudo parecia estar estático, como uma fotografia.

                Enquanto caminhava por entre as árvores “despidas” do parque, Carolina começou a sentir uma dorzinha no peito. Algo que ela sabia exatamente o que era, mas esforçava-se ao máximo para não despertar. Resolvera sair de casa com o intuito de distrair-se, para que aquela sensação não a sufocasse.

                 A dor aumentava gradativamente à medida que as recordações vinham à sua memória. Sentou-se em um banco, procurando acalmar-se, mas percebeu que não poderia mais suportar aquilo.

                Primeiro veio o nó na garganta, seguido de um soluço alto e claro. A moça apoiou a cabeça nas mãos e, a partir daí, seu dia tornou-se ainda mais nublado e molhado. As lágrimas, contidas há dias, jorravam de seus olhos, trazendo-lhe prazer: o alívio. Alívio que, no entanto, não parecia ser capaz de vencer o sentimento que doía em seu peito.

                Sempre sonhara em conhecer o mundo. Desde pequena fazia planos de visitar vários países, conhecer culturas diferentes, aprender novas línguas. Foi por isso que decidiu embarcar nessa aventura. Só não havia planejado uma coisa: a solidão.

                A neve e o frio deixavam tudo ainda mais difícil. Carolina sentia falta de um abraço, de um beijo e de uma conversa amigável. Sentia falta do cheiro de café recém passado, de sua mãe cantando pela casa e do pé de bergamota que havia plantado no quintal. Mas, acima de qualquer coisa, tinha saudade do “isolamento opcional”; de poder escolher entre ficar sozinha ou não.

                Ainda sentada no banco, Carolina, agora, parecia mais calma. Pensou em voltar para o apartamento, mas desistiu, pois não faria diferença alguma; estaria sozinha lá, também. Lembrou-se, então, do que Dorothy disse, em “O Mágico de Oz”. Apesar de ter odiado o filme, pela primeira vez, Carolina teve que concordar com a protagonista: não há lugar como a nossa casa.    

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19 Primaveras

                Sabrina encontrou Margarida em uma manhã com cheiro de chuva e com calçadas molhadas. Caminhava lentamente, observando o colorido que suas galochas amarelas davam ao dia que insistia em permanecer monocromático. Odiava aqueles pedaços de borracha que sua mãe insistia em chamar de sapatos, mas, excepcionalmente naquela manhã, a menina até começou a gostar deles.

                Pararam na tabacaria que ficava na esquina. Seu pai comprou o jornal do dia que recém começava e, agora que estava com as notícias em mãos, caminhavam ainda mais devagar entre um parágrafo e outro.

                Foi entre o caderno de moda e o de esportes, no entanto, que Sabrina encontrou-a. Ali, na floricultura da Dona Kátia, a garotinha avistou algo que viria a ser a aquarela de seus dias mais monótonos. Seu pai anunciava que o Grêmio havia vencido mais uma partida, mas Sabrina não queria mais saber; sua atenção já estava sendo canalizada para o objeto que descansava sobre o balcão.

                Aproximou-se aos poucos do vasinho que sustentava as várias florzinhas coloridas; cheias de perfume. Dona Kátia percebeu o interesse da menina e aproximou-se:

                – Olá, Sabrina! Como vai?

                – Oi! Vou bem… – respondeu a garota, com a voz distante e com os olhos vidrados naquele objeto de desejo.

                – Eu também adoro essas flores do campo. – disse a senhora – Parecem novinhas, mas essa já deve ser a sexta primavera que elas florescem.

                – Sexta?! Flor vive tanto tempo assim? – perguntou a menina, espantada.

                – A vida de uma flor só depende da força e do amor que seu jardineiro deposita nela.

               

                Enquanto refletia sobre o que acabara de ouvir, Sabrina retirou de seu bolso os R$ 4,30 que havia economizado durante a semana, decidida a levar o vasinho que transbordava em cores. Decepcionou-se, porém, quando viu que aquela quantia não era suficiente. Dona Kátia, percebendo o olhar desalentado da garota, disse-lhe que levasse o arranjo e cuidasse bem dele.

                A menina não cabia em si de tanta alegria. Agarrou o vasinho com toda a sua força e levou em suas mãozinhas a maior preciosidade que já havia adquirido: uma tímida Margarida.

                Sabrina cuidou com muito carinho de suas flores, mas, com o passar dos anos, muitas delas foram desaparecendo. Algumas foram comidas por formigas, outras não suportaram o frio dos invernos. Margarida, no entanto, permanecia lá, firme e forte, enraizada no lado esquerdo do vaso.

                Quando Sabrina as levou para casa, nem havia reparado naquela florzinha branca, de uma simplicidade ímpar. À medida que as estações passaram, a menina, que agora se tornava mulher, percebeu que Margarida era a mais leal de suas flores.

                Era ela quem lhe exalava um “Bom dia!” pelas manhãs. Ela que ouvia suas confissões, seus medos e seus planos para o futuro. Margarida fazia-lhe rir, sem nem saber por quê. Sua companhia era sempre agradável. E, acima de tudo, a florzinha conseguia decifrar o olhar de sua jardineira.

                Hoje, 19 primaveras depois, a Margarida não é mais tímida. Tornou-se a princesa do vasinho e, a cada ano, torna-se mais forte, mais bonita e mais especial para essa jardineira que com tanto amor a cultiva. Se depender de Sabrina, muitas primaveras ainda virão, (re)florescendo a amizade que nenhum pesticida será capaz de matar.

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Pás

                     O ar despreocupado com que andava e seu olhar distante chamavam a atenção de quem passava por ela. Algumas vezes, os expectadores podiam até presenciar um sorriso sutil em seus lábios.

                     Caminhava contra o vento, que insistia em embaraçar seus cabelos naturalmente embaraçados. A jaqueta jeans não parava no lugar, deixando seu peito desprotegido do frio cortante de meados de julho. Mas ela não se importava. Gostava daquela sensação. Sentia seu coração batendo mais rápido a cada nova lufada de vento que lhe atravessava o corpo. Fechou os olhos e lembrou-se da cena que havia presenciado há minutos atrás.

                    O dia estava nublado e, por isso, não havia muitas pessoas na praça. As poucas crianças que lá se encontravam, pareciam “trouxinhas”, devido à grande quantidade de roupas que, provavelmente, suas mães haviam insistido para que vestissem. Corriam com dificuldade e, muitas vezes, tropeçavam em suas mantas, que arrastavam no chão.

                    Rebeca sentou-se em um dos balanços e começou a embalar-se devagar; sem tirar os pés do chão. Ficou observando os pimpolhos brincarem na areia úmida.

                    Uma garotinha de cabelos e olhos bem escuros encontrava-se sentada no chão, com um balde amarelo entre suas perninhas e uma pá azul na mão. Enterrava a ferramenta com certa dificuldade, pois seus dedinhos não conseguiam segurar com firmeza o instrumento. Retirava um punhado de areia do solo para, depois, depositá-lo em seu baldinho. Efetuava o procedimento repetidamente e com enorme concentração.

                     Há uns dois metros de distância encontrava-se um menino loiro, que aparentava ser um ou dois anos mais velho que a menina. O garotinho a observava, um pouco acanhado. Em sua mão esquerda, segurava uma pá cor de laranja.

                     Aos poucos o menino foi se aproximando, olhando fixamente para a garotinha que, até o momento, não havia percebido a intenção do loirinho. Somente quando ajoelhou-se à sua frente e cravou a pá cor de laranja na areia, a menina tirou toda aquela concentração e seriedade do rosto e colocou os olhos no menino pela primeira vez.

                      Os dois ficaram se olhando por um bom tempo. O garoto estampava um pedido de aprovação, enquanto a garotinha “analisava-o”, um tanto desconfiada. Rebeca observava a cena, encantada com a pureza daqueles olhares. O menino pegou uma pá cheia de areia e despejou dentro do recipiente amarelo.         

                      A expressão no rosto da menina suavizou-se, iniciando, assim, algo muito maior que simplesmente “encher um balde com areia”. Ali, naquela areia, foi plantada uma relação de cumplicidade e de confiança, regada somente por olhares que transbordavam verdade. Palavras não eram necessárias. Tudo o que precisava ser dito não precisava ser falado.

                     Rebeca ficou deslumbrada com aquela complexa simplicidade de comunicação. Sentiu vontade que, no “mundo de gente grande”, as relações pudessem ser assim. Com certeza muitos baldes poderiam estar cheios, se as pessoas aprendessem a falar menos e a dizer mais. E, principalmente, se resgatassem a pureza e a essência das caixas de areia das pracinhas de sua infância.        

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Fruto Proibido

             O verão vinha sendo massacrante naquele ano, principalmente para os que, ao contrário da maioria, permaneciam na cidade. Do sofá da sala, onde se encontrava atirada, Catarina olhava a janela e abanava seu rosto com o último exemplar da revista Super Interessante. Reparava que as folhas das árvores estavam estáticas. Seus galhos não haviam  mexido um tantinho sequer desde que se deitara ali. Um passarinho cantava alegremente e a moça teve vontade de arrancar o pescoço daquele animalzinho irritante. Mas, na verdade, o que sentiu foi inveja de toda aquela felicidade e liberdade.

            Levantou-se com muito esforço e foi para a cozinha. Pegou um copo no armário e abriu a geladeira, para pegar a jarra de água. Ao agarrar a jarra, olhou para a prateleira gelada e estacionou seus olhos em algo inusitado, que se encontrava ali, atrás do pote de margarina.

            Não fazia idéia de como aquilo tinha ido parar na sua geladeira. Mas tinha a certeza de que estava à sua espera; aguardando o momento em que ela abrisse a porta e a encontrasse.

            Desistiu da água. Largou a jarra e pegou em suas mãos a razão do brilho nos seus olhos: um pedaço de melancia.

            A garota ficou apreciando o “fruto proibido”.

            Durante toda a sua vida, diziam-lhe para ter cuidado; que melancia era uma fruta muito “perigosa”. Não se podia misturá-la com leite. O que acontecia se o fizesse ninguém sabia ao certo, mas optavam por não arriscar.

            Catarina só havia experimentado uma vez. Sua mãe relutou, mas, após muita insistência da menina, tirou as sementes, cortou a fruta em pedacinhos, colocou-os em um prato que entregou à menina, junto com um garfo e um guardanapo. O problema era que a garota não queria daquele jeito. Queria comer com as mãos; igual à Magali, nas histórias em quadrinhos.

            A mãe ficou ultrajada quando ouviu isso: “Onde já se viu?! Uma menina educada não come dessa maneira. Agora trata de comer isso aí e cuida pra não pingar na tua roupa!”. Graças a essas e muitas outras “exigências” da mãe, Catarina havia desenvolvido uma habilidade fantástica em comer sorvete sem derramar uma gota no chão. Sabia também que uma mocinha, como sua mãe lhe chamava na infância, devia cuidar para não se sujar enquanto brincava e que devia sempre portar-se adequadamente.

            Ali, encarando o pedaço que sorria para ela, Catarina sentiu que havia chegado a hora de deixar a mocinha para trás e de começar a comer melancia à sua maneira.

            Sentou-se no degrau da varanda de sua casa, olhou uma última vez para aquele contraste do vermelho e do verde e mergulhou na fruta. Gotas daquele suco escorriam pelos cantos da sua boca e desciam até o seu pescoço. Seu nariz, seu queixo, suas roupas, suas mãos…tudo agora tinha o doce gosto da liberdade. Agora entendia porque o passarinho cantava daquele jeito. Naquele momento, a mesma melodia passou a tocar em sua cabeça.

            A partir daquele dia, a melancia passou a ser um item fundamental em sua geladeira. Comia sempre “à la Magali“. Em algumas ocasiões engasgava-se com as sementes, em outras apenas as engolia ou as cuspia fora. Às vezes a fruta estava verde, mas comia do mesmo jeito, pois sabia que, da próxima vez, o sabor seria diferente. Até experimentou tomar leite junto, uma vez. Sentiu-se um pouco estranha. Mas sobreviveu. E viveu.

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Pedestal

  

            Os pingos de chuva ficavam cada vez mais espessos e pesados, aumentando o barulho que faziam ao bater no vidro da janela. Aquele céu azul que havia acordado com o amanhecer do dia, deu lugar a nuvens carregadas. Carregadas de sorrisos e de esperança.

O cheiro de grama molhada pairava pelo ar, fazendo Bianca inalar profundamente aquele odor que tanto gostava, mas que, naquele momento, parecia muito melhor; cheirava a conquista.

 Normalmente costumava ter medo de tempestades. Fechava as janelas e fazia de tudo para evitar olhar a escuridão perturbadora que a cercava. Naquele dia, no entanto, deixou as cortinas bem abertas e ficou observando a dança que as copas das árvores executavam ao ritmo da melodia que o vento assoviava. A iluminação ficava por conta dos raios, que tornavam o show muito mais envolvente.

Bianca grudou o rosto no vidro gelado. Seus olhos brilhavam de desejo. Desejo de fazer parte do espetáculo. Desejo de dançar e extravasar tudo. Não podia conter o que sentia.  

Saiu correndo, porta afora, e afundou seus pés na grama molhada e mal aparada, que já alcançava a metade de suas canelas. Abriu os braços, fechou os olhos e sorriu; um sorriso sincero. Não lembrava a última vez que havia sorrido assim: um sorriso tão bom, que dava até vontade de chorar.

A moça sabia exatamente o motivo daquilo. Enquanto sentia os pingos de chuva fazendo-lhe cócegas e colando a saia do seu vestido rodado em suas pernas, Bianca lembrava-se da noite anterior.

Ainda conseguia enxergá-lo ali, à sua frente, conversando e jogando todo o seu charme para cima dela. Não acreditava no que estava acontecendo. Transbordava de satisfação, mas não podia deixar transparecer para não dar a impressão errada ao rapaz. Quando deitou a cabeça no travesseiro, após a festa, dormiu sem arrependimentos e sonhou como nunca havia sonhado antes.

Agora, encontrava-se ali; encharcada de alegria até a alma e com as esperanças renovadas.

Muitos de vocês diriam: “Isso só pode ser amor!”. Mas não; muito pelo contrário. Era “desamor”.

Há meses Bianca vinha tentando “desamar” aquele que, por muito tempo, brincou com seus sentimentos como um cachorro brinca com seu osso. Enquanto ele a enterrava e desenterrava de seu quintal, sem aviso prévio e nem hora marcada, a moça o conservava em um pedestal alto demais, tornando mais difícil a tarefa de tirá-lo de lá.

Bianca não lembrava ao certo quando foi o momento em que realmente desocupou aquele lugar. Mas o fato é que conseguiu e isso ficou comprovado no momento em que o viu, na festa da noite anterior.

O vento soprou mais forte e fez com que a grama alta roçasse em suas canelas. Bianca sentia-se leve. Não choraria mais à noite, nem sentiria aquele aperto esmagador no peito.

Começou a cantarolar e a dançar. E, definitivamente, cortou o pé do pedestal.

           

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Era uma vez…

O relógio marcava quase meia noite e as luzes da cidade passavam rápidas pela janela do carro. No rádio, Chitãozinho e Xororó faziam uma performance capaz de arrebentar-lhes as pregas vocais. Felipe chegava a fechar os olhos, emocionado, toda a vez que a dupla repetia o refrão.  Milena, por sua vez, não via a hora de que aquela tortura acabasse.      

“Ai, meu Deus! O que foi que eu fiz pra merecer isso?”, pensou Milena.

Desde o dia em que havia conhecido Felipe, no casamento de sua prima, acreditava que ele era o homem de sua vida; aquele com quem vinha sonhando desde pequena. Quando o avistou lá na frente, ao lado dos outros padrinhos, Milena sentiu vontade de afogar-se no azul daqueles olhos e desejou que ele também estivesse no altar do seu casamento; mas não com o mesmo propósito daquela ocasião.

            Não conseguiu tirar os olhos daqueles 1,9 m de altura por 1 m de ombros durante toda a cerimônia. Era ele, sim! Era ao lado dele que Milena queria acordar todas as manhãs.

            No primeiro encontro, a garota parecia fora de sua órbita. Estava fascinada com aquele ser. Fazia, secretamente, planos para os dois.

Imaginava-se morando em uma casa grande, em um lugar tranqüilo. Seu quintal era enorme e a grama estava sempre bem aparada. Quatro crianças, três meninos e uma menina, brincavam e puxavam os cabelos umas das outras. Todos os dias, Felipe chegava do trabalho, beijava-lhe e corria pela grama, ao encontro dos filhos. Ele ainda aparentava o mesmo; não havia marcas de idade em seu rosto. Ela também, após quatro partos normais, conservava os mesmos 68 cm de cintura.

Ao longo do tempo, porém, Milena foi percebendo que todas aquelas dimensões, músculos, cabelos loiros e olhos azuis não bastavam. O rapaz tinha tudo o que o figurino de um príncipe encantado exigia, exceto a capa e o cavalo branco. Mas quando Felipe abria a boca o encanto desfazia-se e tudo o que Milena ouvia era o coaxar de um sapo; nada mais.

            Após muito relutar, a moça finalmente tomou coragem e acabou com aquele pseudo-conto de fadas. Chegou a arrepender-se depois, por tê-lo dispensado, mas, à medida que os dias passavam, percebia que o canto sertanejo do sapo não fazia falta na sua rotina.

            O tempo passou e, em um belo domingo ensolarado, Lucas sentou ao seu lado e nunca mais saiu de lá. Ele era bastante diferente do que ela considerava o “homem ideal”, mas possuía todas as qualidades das quais ela carecia e, quando o avistava, o único som que ouvia era o seu coração, batendo em seus ouvidos.

Casaram-se e tiveram dois filhos; um casal. Moraram em um apartamento no centro da cidade, em frente a uma pracinha. Lucas não a beijava todos os dias. Sua barriga sequinha deu lugar a outra, agora saliente, que caía para fora das calças. Milena também engordou um pouco e algumas rugas começaram a surgir nos cantos dos seus olhos. O tempo levou embora sua juventude e a paixão, mas conservou o mais importante: o amor. Sua vida esteve longe de ser como um comercial de margarina. Alguns dias foram bons, outros nem tanto.

E viveram felizes para sempre.

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Abraço de Areia

           

           “Bum! Shh…”. Silêncio. “Bum!Shh…”. Silêncio.

            A praia estava tão deserta que somente as ondas do mar compunham a trilha sonora daquela noite. Lívia estava sentada na areia, observando a Lua tomar banho naquele mar infinito.

            Há tempo vinha fazendo aquilo. Saia de sua cama, vestia qualquer roupa e ia para a praia. Era a sua hora preferida do dia. Ou melhor, da noite. Se sua mãe descobrisse que a menina andava sozinha pela praia, àquela hora, tinha certeza de que a mandaria de volta para casa em dois toques.

            Mas Lívia precisava daquilo. Precisava daquela melodia das ondas, da luz do luar, do cheiro de tranqüilidade… Sentia-se quase completa ali; quase em paz. Quase.

            Deitou-se na areia gelada, sem preocupar-se com os grãos que começaram a grudar em sua pele e a misturar-se com seus cabelos. Fitou o céu estrelado, sem prestar atenção nas estrelas. Seu pensamento estava muito além dali.

            Como eu queria que ele estivesse aqui”, pensou ela, desejando com toda a força que ele ouvisse sua mente e soubesse que ela o queria por perto de qualquer maneira.

Queria que ele deitasse ali, ao seu lado, em silêncio. Tudo o que ela mais necessitava era de um beijo na testa e um abraço demorado. Um abraço com cheiro de roupa lavada, que desfaria aquele nó em sua garganta e libertaria seu peito daquele aperto que vinha sentindo há semanas. Gestos que comprovariam que ela ainda podia contar com ele; que não havia o perdido.   

                Um vento forte começou a soprar, trazendo areia e a realidade aos seus olhos. Lívia tentou protegê-los, mas não conseguiu e lágrimas doloridas começaram a escorrer por suas bochechas. Aquele abraço ficaria somente na vontade. Vontade de recuperar aquilo que nunca existiu.

            Naquela noite a maré subiu mais do que o normal, inundando, definitivamente, o que restava daquele abraço de areia.     

                

           

 

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Raio de Sol

               

            O Sol estava quente naquele dia. Das várias pessoas que por ali passavam ouviam-se comentários a respeito do calor infernal que fazia nas últimas semanas. Para mim, o clima não poderia estar mais agradável. O verão tinha, finalmente, chegado, trazendo consigo a luz do astro-rei e seu calor, que eu sentia na pele como uma carícia de alguém que nunca conheci.

            Geralmente ficava nervosa em lugares em que não encontrava ninguém conhecido, mas, naquele dia em especial, não desejava estar com mais ninguém a não ser comigo mesma.

            Andei por entre as tendas armadas no parque, sem preocupar-me com o que me ofereciam. Sentia o perfume das flores e admirava os desenhos cromáticos que as mesmas compunham. Curtia o prazer de usar aquele vestido leve, que roçava seu tecido por minhas pernas a cada passo que eu dava. Sentia os raios solares baterem em meu rosto, trazendo-me energia e um sentimento de nostalgia.

Fechei os olhos e tentei parar o movimento de rotação da Terra. Queria que o mundo parasse ali, naquele momento, e que, em meu mundo, o verão fosse constante. Minha tentativa, infelizmente, foi em vão e percebi que invernos rigorosos ainda viriam.

Foi quando abri meus olhos que encontrei os dele. Olhos verdes, como eu nunca havia visto iguais. Sua franja loira refletia a luz do sol e fazia com que eu ficasse cada vez mais absorvida por aquele ser. Parecia um pouco tímido e acanhado, mas um menino especial.

Sua mãe o segurava no colo e o garoto deitou a cabeça em seu ombro. Parecia deprimido demais, para uma criança da sua idade. A mãe, uma mulher de meia-idade, parecia nervosa e balançava-o de um lado para o outro, olhando para os lados freneticamente.

A partir daí, tudo aconteceu como um flash: a mãe entregou-me a criança, disse que ele iria ser operado hoje mesmo, pois estava com leucemia. A mulher sumiu, de repente, e deixou-me ali com o menino.

Tudo girava à minha volta e nuvens tapavam o sol com o qual eu conversava, há minutos atrás. Eu segurava em meus braços um único raio de sol, que iluminava meu caminho.          

A sensação era acalentadora e apavorante, ao mesmo tempo. Sentia suas pernas enroscadas em minha cintura enquanto o segurava no colo. Seus braços envolviam meu pescoço e ele me olhava com aquelas duas esmeraldas; aqueles olhos de súplica e pavor. O garoto tinha ciência do que estava acontecendo. Ele me pedia ajuda sem ter que falar nada. E eu entendia.

Tinha vontade de protegê-lo; de não largar ele nunca mais, com esperança de que isso solucionasse seu problema. Mas sabia que isso não aconteceria e que meu verão, cedo ou tarde, tornar-se-ia um pálido outono.

No hospital, o médico o chamou para o centro cirúrgico e não pude fazer nada a não ser tentar acalmá-lo e deixá-lo ir com o cirurgião.

O sentimento de impotência, o desespero e a vontade de ir para a mesa de cirurgia no lugar dele tomavam conta de mim. Chorei. Chorei pela injustiça causada a essa doce criatura que espalhava tanto encanto e calor. Chorei de medo; desespero. Chorei por estar ali sozinha.

Acordei com frio; com um sentimento de que, mesmo que tivesse sido somente sonho, tinha deixado algo para trás. “Graças a Deus, foi só um sonho”, pensei, sentindo, ainda, o peso daquele raio de sol em meus braços. 

 

 

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Fusão

            É engraçado o que nos acontece. Em um momento, somos totais estranhos e, no instante seguinte, parece que algo sobrenatural acontece. Algo que faz com que duas histórias, tão distintas, mas ao mesmo tempo tão parecidas, se cruzem. Algo que a física, a biologia ou a astronomia não conseguem explicar.

            A cada linha escrita dessa fusão de capítulos; dessa nova história, uma nova surpresa, uma nova esperança e, quem sabe, uma decepção. À medida que o tempo passa, a mistura torna-se tão homogênea que já não se pode distinguir a história de um ou de outro e, sim, deles.

 

            Se Marcos não tivesse dobrado a esquina naquele exato momento, talvez continuasse com sua “mono-história” por muito tempo. Se Maria não tivesse marcado uma consulta no dentista para às 15 horas, nunca teria encontrado Sandra, sua futura melhor amiga. Mas será que não teria mesmo?

 

            Será que essas histórias já não estão escritas, como muitos dizem? Será que todos nós não fazemos parte de um único enredo? Será, nossa vida, destino ou acaso?

 

            Não sei a resposta para essas perguntas. Minha história já foi agregada a muitas outras e continuo nesse dilema. Alguns coadjuvantes não conseguiram sobreviver à fusão; os reagentes não produziram uma explosão significativa. Os protagonistas, no entanto, permanecem. Ajudam-me a escrever as muitas páginas que ainda faltam.

 

            Espero que contigo não seja diferente. Quero que nosso capítulo torne-se nossos capítulos. Quero te fazer protagonista. E, mais que tudo, quero que nossa história tenha um final feliz. Fundida, ou não.