Relíquia

E hoje eu estava em casa, rodeada pelos meus móveis da Ikea, e me peguei pensando nele.

Uma estranha vontade de abraça-lo passou pelo meu peito e me deparei querendo conversar com ele, sentir seu cheiro, trocar confidências. Foi um sentimento esquisito, mas tive a impressão de que ele me conhece melhor do que ninguém, pois sempre esteve lá.

Lembrei as inúmeras discussões que o bendito causou. Do meu pai revirando os olhos e dizendo para minha mãe jogar aquilo fora; que não tinha espaço em volta da mesa por causa do tal armarinho azul. E, então, a mãe já batia o pé e dizia o quanto ela amava aquele armário, que ela nunca iria se desfazer dele, que ele não era azul originalmente e, então, ela já engatava a famosa história da relíquia.

Tudo começou na casa da minha avó materna, quando ela ganhou (se não me engano) o tal armário no Clube de Mães. Por mais que tenha ouvido o relato milhões de vezes, não lembro ao certo se ia para o lixo ou só estava sem serventia, mas sei que minha mãe arrecadou o armário de portinhas de vidro para ela. Naquela época ela e meu pai ainda eram namorados e ela sempre contava que os dois reformaram a peça juntos, e o quanto ela gostou de fazer aquilo. Foi aí que o armário entrou para a família e passou a ser parte da nossa história. E ele ainda não era azul, era bege.

Lembro que na casa amarela ele ficava na sala, pertinho do toca discos. Toda vez que a gente dançava e pulava por perto o chão de madeira tremia, a agulha do toca discos vibrava, o pai lançava um olhar ameaçador (porque ia riscar o disco!) e dava para ouvir as taças e as portinhas de vidro do armário balançando. Parecia que ele dançava com a gente. Até hoje esse som me faz lembrar aquela casa. E nos vídeos dessa fase tão querida das nossas vidas ele está lá atrás, observando e absorvendo todos esses momentos, quietinho, mas ali.

Depois fomos para o apartamento e foi nessa ocasião que ele ficou azul! O pai deve ter pensado que ia se livrar da mobília, mas não deu outra: a mãe mandou fazer uma pátina (técnica de pintura muito utilizada na época – pelo menos lá em casa) e ele foi cuidadosamente realocado para a cozinha. Não demorou muito e nos mudamos de novo e ele foi parar no lugar onde está até hoje.

Ali ele presenciou os nossos almoços e jantares em família, em que a gente ficava conversando depois da comida. Era um tempo do dia sagrado para nós e a minha hora favorita do dia: sentar e conversar com as pessoas que eu mais amo no mundo. E ali a família estava completa: pai, mãe, irmã, eu e o armário azul.

Acredito que nenhuma mobília está há tanto tempo lá em casa quanto ele. Ele foi o único que permaneceu; do qual ninguém conseguiu se desfazer. Isso porque, se esse armário falasse, poderia contar a nossa história. Porque cada poro da madeira que o sustenta guarda uma lembrança. Porque não tem como olhar para ele e não recordar a quantidade de momentos, bons e não tão bons, que ele presenciou.

E agora eu olho para a minha casa, que mais parece um catálogo da Ikea, achando tudo tão sem graça e desejando que, no futuro, eu tenha um armarinho azul para admirar e para me fazer recordar os momentos que ainda estão por vir.

Palco

Julieta já estivera naquela situação outras vezes. Sentia sempre a mesma sensação e por isso não entendia por que aquele frio na barriga ainda insistia em alojar-se ali. Suas mãos, que suavam a cada minuto mais, apertavam sua barriga, tentando controlar o enjôo que sentia. Seu consolo era a luz esmaecida do lugar, que permitia que ela sentisse tudo aquilo sem ninguém perceber.

O murmurinho de pessoas falando aumentava gradativamente, à medida que a hora se aproximava. Julieta estava apreensiva. Tudo havia dado certo no ensaio. Nada poderia sair errado.

A sirene soou pela terceira vez e seu coração parou por um segundo. As cortinas começaram a abrir. Julieta respirou fundo e entrou no palco. No momento em que foi cegada pelos fortes holofotes sentiu todo o medo misturar-se com um prazer inexplicável.

O coração batia forte em seus ouvidos, mas as palavras saiam com fluência e ritmo. Suas pernas tremiam levemente, mas seus gestos eram firmes. Sua voz ecoava no teatro silencioso, que prendia todas as suas atenções na mulher que vos falava.

O espetáculo ia muito bem. A platéia reagia aos diálogos e Julieta sentia-se, agora, mais confiante.

Após sua última fala, Julieta encaminhou-se para trás da cortina, de onde esperaria até sua próxima cena. Na metade do caminho, no entanto, enroscou-se em seu vestido comprido e caiu de joelhos no palco.

Houve um silêncio no local. Ninguém sabia se levantava para ajudá-la ou se a deixava erguer-se sozinha.

Julieta sentiu tudo rodar. Seu rosto ficou quente e lágrimas quiseram brotar de seus olhos. A atriz, no entanto, não as deixou saírem. Ao invés disso, levantou-se com um sorriso no rosto e caminhou lentamente, de cabeça erguida, até a coxia.

Fora do alcance dos olhares alheios, Julieta sentiu-se mais tranquila. A vergonha havia ido embora, deixando espaço para a realização.

Estava realizada por ter lembrado suas falas e por ter prendido a atenção da platéia, mas, principalmente, por não ter fraquejado no momento em que algo deu errado. Estava orgulhosa de si mesma, por ter sido corajosa em posicionar-se em frente àquelas pessoas e por ter sido forte o suficiente para erguer sua cabeça novamente.

A vida não nos permite ensaios. Por mais que a planejemos, nunca conseguiremos com que tudo saia exatamente de acordo com o script. Falas serão esquecidas, tombos e rasteiras virão e, muitas vezes, teremos que improvisar a cena. A verdadeira arte está em conseguir, apesar dos imprevistos, fazer da sua vida um espetáculo inesquecível.

“Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”. – Charles Chaplin.

Aqueles Braços

                Não me lembro da primeira vez que aqueles braços me seguraram. Braços protetores e quentes. Braços “mágicos” capazes de consolar e de curar qualquer dor. Dizem que era um dia quente e iluminado; especialmente encomendado para clarear meu caminho e acender meu olhar.

                Coração havia voado e, naquele momento, apresentaram-me o sol de um novo amor que até hoje brilha (para sempre). Flores nos rodeavam, mas, à medida que fomos criando mais contato, percebia que a flor mais bela e cheirosa era a que me embalava.

                Seu calor, sua voz, seu carinho, seu zelo, sua preocupação, fizeram-me quem sou hoje.

                “A melhor de todas” encheu minha vida de força, de magia, de sonho, de fantasia e de alegria de viver. Era ela a minha companheira quando me encontrava em uma tempestade em alto mar, em um navio afundando e cheio de crianças. É ela que ainda fica acordada à noite quando estou doente. É a ela que confio meus segredos.

                Confio nas mãos que, muitas vezes já afagaram meus cabelos e que sempre adoçam um pouco mais o meu café. Confio na voz que me tranqüiliza desde que “me conheço por gente”. Confio nos olhos que sempre confiaram em mim. Confio no amor. Confio nos braços que nunca me deixaram cair ao chão e que sempre me apoiaram, ajudando-me a seguir pelo caminho mais correto.         

                Espero um dia poder ter o “poder” desses braços. Desejo ter a chance de depositar em um ser todo o amor incondicional que foi depositado em mim. Anseio em poder ensiná-lo a amarrar seus cadarços e dar seus passos sozinhos, ajudando-lhe a desatar os nós que o tempo talvez traga. Quero partir deixando a herança que me foi deixada eternamente e que dinheiro nenhum é capaz de pagar: o respeito, o caráter e a certeza do amor.      

              

Ao Que Vai Chegar – Toquinho     

Esquina dos Corações (re)Partidos

Plec, plec, plec, plec…”

                Salto alto nunca havia sido o forte de Gabriela e agora, mais uma vez, a menina demonstrava sua (falta de) habilidade ao utilizar o “instrumento”. Suas amigas, que apresentavam muito mais destreza em cima dos “andaimes”, caminhavam rápido, obrigando a garota a dar alguns pulinhos de vez em quando para conseguir acompanhar seu ritmo. Para piorar a situação, o sapato estava começando a criar-lhe uma incômoda bolha no calcanhar esquerdo. Tão incômoda quanto o aperto que sentia no peito. E a noite estava apenas começando.

                Uma noite de outubro. Nem quente, nem fria; simplesmente agradável.

                O telefone de Thiago havia tocado há 10 minutos e o garoto já estava pronto para a balada para a qual haviam lhe convidado. Precisava desesperadamente sair; encontrar pessoas. Vestiu a camisa que havia ganhado de aniversário e fez a barba. Olhou-se no espelho: estava pronto. Mas será que estava mesmo?

                Uma buzina soou lá fora e Thiago correu para o carro. E para tentar fugir do que sentia.

                Que droga de sapato apertado! E essa calçada cheia de buracos também não ajuda! Quem me dera eu pudesse vir de pantufas! Ai, não sei por que eu deixo as gurias me arrastarem pra esse lugar. Eu nem queria sair de casa, mas elas sempre me convencem. Nossa! Abriu um barzinho novo… Bem ajeitadinho até. Meu Deus! Que cara mais bagaceiro que “tá” me encarando ali da mesa do boteco. Desvia o olhar, Gabriela! Anda mais rápido! Opa! Cuidado pra não cair do salto e…

            Putz! Esse cara dirige muito mal! Nem sei como que a gente chegou vivo aqui. Bah, hoje eu vou encher a cara. “Tô” precisando. Vou gastar tudo em coisa forte. Nossa! “Tá” quente hoje! Será que eu passei desodorante?! Passei, passei. Ainda bem. Deixa eu pensar: R$70,00, com a dose da tequila a R$10,00 dá pra tomar umas… “Peraí”, 70 dividido por 10 é… Ah… Dá pra ficar bêbado. Olha! Não tinha visto que tinha aberto esse barzinho. Coisa de playboy isso aí. Aposto que…

                Gabriela estava voltando, rumando para o Sul, enquanto Thiago vinha do Leste. No exato momento em que o garoto resolveu mudar seu rumo e seguir em direção ao Norte, a menina cruzou seu caminho. Mais uma vez. E ali, naquela esquina, os dois entenderam o que cada um significava para o outro.

                – Oi. – disse Gabriela, sentindo as pernas vacilarem.

                – Oi. – disse Thiago, desejando nunca ter saído de casa.

                E continuaram caminhando. Cada um na direção que havia escolhido.          

                Droga! Eu senti que ia encontrar ele hoje. Nossa! Ele ainda surte efeito em mim. Respira Gabriela! Ou tu vais ter um ataque cardíaco aqui. Adorei aquela camisa dele… Será que ele vai se encontrar com alguém? E se for? Ai, ai, ai… Eu não “tô” me sentindo muito bem…

            Putz, cara! Eu não devia ter saído de casa. Ela estava tão linda… Deu até pra sentir o perfume dela. Ah, meu! Por que essa guria faz isso comigo? Eu aqui, fazendo de tudo pra esquecer, e ela me aparece toda linda e toda feliz e cheia de amiga solteira. Não posso deixar ela solta assim. Ela é boa demais pra esse bando de bagaceiros que estão por aí. Tenho que ir lá!   

                Depois daquele encontro, Gabriela e Thiago deixaram-se guiar pela força que rege, ilumina e faz os nossos dias valerem a pena. Somente o coração sabe o caminho certo a seguir, mesmo que, às vezes, ele pareça o mais longo. Não importa quantas direções a rosa dos ventos nos ofereça, não cabe a nós decidir onde a estrada acabará.

“There’s no place like home”

                  As luvas que envolviam as suas mãos não eram suficientes para esquentá-las do frio daquela manhã cinzenta. O ar gélido que enchia seus pulmões ardia toda a vez que passava por sua garganta.  Carolina já estava arrependendo-se de ter saído de casa. O dia parecia estar tão congelado quanto a neve que havia caído na noite passada. O silêncio chegava a ser mais alto que seus pensamentos. Tudo parecia estar estático, como uma fotografia.

                Enquanto caminhava por entre as árvores “despidas” do parque, Carolina começou a sentir uma dorzinha no peito. Algo que ela sabia exatamente o que era, mas esforçava-se ao máximo para não despertar. Resolvera sair de casa com o intuito de distrair-se, para que aquela sensação não a sufocasse.

                 A dor aumentava gradativamente à medida que as recordações vinham à sua memória. Sentou-se em um banco, procurando acalmar-se, mas percebeu que não poderia mais suportar aquilo.

                Primeiro veio o nó na garganta, seguido de um soluço alto e claro. A moça apoiou a cabeça nas mãos e, a partir daí, seu dia tornou-se ainda mais nublado e molhado. As lágrimas, contidas há dias, jorravam de seus olhos, trazendo-lhe prazer: o alívio. Alívio que, no entanto, não parecia ser capaz de vencer o sentimento que doía em seu peito.

                Sempre sonhara em conhecer o mundo. Desde pequena fazia planos de visitar vários países, conhecer culturas diferentes, aprender novas línguas. Foi por isso que decidiu embarcar nessa aventura. Só não havia planejado uma coisa: a solidão.

                A neve e o frio deixavam tudo ainda mais difícil. Carolina sentia falta de um abraço, de um beijo e de uma conversa amigável. Sentia falta do cheiro de café recém passado, de sua mãe cantando pela casa e do pé de bergamota que havia plantado no quintal. Mas, acima de qualquer coisa, tinha saudade do “isolamento opcional”; de poder escolher entre ficar sozinha ou não.

                Ainda sentada no banco, Carolina, agora, parecia mais calma. Pensou em voltar para o apartamento, mas desistiu, pois não faria diferença alguma; estaria sozinha lá, também. Lembrou-se, então, do que Dorothy disse, em “O Mágico de Oz”. Apesar de ter odiado o filme, pela primeira vez, Carolina teve que concordar com a protagonista: não há lugar como a nossa casa.    

19 Primaveras

                Sabrina encontrou Margarida em uma manhã com cheiro de chuva e com calçadas molhadas. Caminhava lentamente, observando o colorido que suas galochas amarelas davam ao dia que insistia em permanecer monocromático. Odiava aqueles pedaços de borracha que sua mãe insistia em chamar de sapatos, mas, excepcionalmente naquela manhã, a menina até começou a gostar deles.

                Pararam na tabacaria que ficava na esquina. Seu pai comprou o jornal do dia que recém começava e, agora que estava com as notícias em mãos, caminhavam ainda mais devagar entre um parágrafo e outro.

                Foi entre o caderno de moda e o de esportes, no entanto, que Sabrina encontrou-a. Ali, na floricultura da Dona Kátia, a garotinha avistou algo que viria a ser a aquarela de seus dias mais monótonos. Seu pai anunciava que o Grêmio havia vencido mais uma partida, mas Sabrina não queria mais saber; sua atenção já estava sendo canalizada para o objeto que descansava sobre o balcão.

                Aproximou-se aos poucos do vasinho que sustentava as várias florzinhas coloridas; cheias de perfume. Dona Kátia percebeu o interesse da menina e aproximou-se:

                – Olá, Sabrina! Como vai?

                – Oi! Vou bem… – respondeu a garota, com a voz distante e com os olhos vidrados naquele objeto de desejo.

                – Eu também adoro essas flores do campo. – disse a senhora – Parecem novinhas, mas essa já deve ser a sexta primavera que elas florescem.

                – Sexta?! Flor vive tanto tempo assim? – perguntou a menina, espantada.

                – A vida de uma flor só depende da força e do amor que seu jardineiro deposita nela.

               

                Enquanto refletia sobre o que acabara de ouvir, Sabrina retirou de seu bolso os R$ 4,30 que havia economizado durante a semana, decidida a levar o vasinho que transbordava em cores. Decepcionou-se, porém, quando viu que aquela quantia não era suficiente. Dona Kátia, percebendo o olhar desalentado da garota, disse-lhe que levasse o arranjo e cuidasse bem dele.

                A menina não cabia em si de tanta alegria. Agarrou o vasinho com toda a sua força e levou em suas mãozinhas a maior preciosidade que já havia adquirido: uma tímida Margarida.

                Sabrina cuidou com muito carinho de suas flores, mas, com o passar dos anos, muitas delas foram desaparecendo. Algumas foram comidas por formigas, outras não suportaram o frio dos invernos. Margarida, no entanto, permanecia lá, firme e forte, enraizada no lado esquerdo do vaso.

                Quando Sabrina as levou para casa, nem havia reparado naquela florzinha branca, de uma simplicidade ímpar. À medida que as estações passaram, a menina, que agora se tornava mulher, percebeu que Margarida era a mais leal de suas flores.

                Era ela quem lhe exalava um “Bom dia!” pelas manhãs. Ela que ouvia suas confissões, seus medos e seus planos para o futuro. Margarida fazia-lhe rir, sem nem saber por quê. Sua companhia era sempre agradável. E, acima de tudo, a florzinha conseguia decifrar o olhar de sua jardineira.

                Hoje, 19 primaveras depois, a Margarida não é mais tímida. Tornou-se a princesa do vasinho e, a cada ano, torna-se mais forte, mais bonita e mais especial para essa jardineira que com tanto amor a cultiva. Se depender de Sabrina, muitas primaveras ainda virão, (re)florescendo a amizade que nenhum pesticida será capaz de matar.

Pás

                     O ar despreocupado com que andava e seu olhar distante chamavam a atenção de quem passava por ela. Algumas vezes, os expectadores podiam até presenciar um sorriso sutil em seus lábios.

                     Caminhava contra o vento, que insistia em embaraçar seus cabelos naturalmente embaraçados. A jaqueta jeans não parava no lugar, deixando seu peito desprotegido do frio cortante de meados de julho. Mas ela não se importava. Gostava daquela sensação. Sentia seu coração batendo mais rápido a cada nova lufada de vento que lhe atravessava o corpo. Fechou os olhos e lembrou-se da cena que havia presenciado há minutos atrás.

                    O dia estava nublado e, por isso, não havia muitas pessoas na praça. As poucas crianças que lá se encontravam, pareciam “trouxinhas”, devido à grande quantidade de roupas que, provavelmente, suas mães haviam insistido para que vestissem. Corriam com dificuldade e, muitas vezes, tropeçavam em suas mantas, que arrastavam no chão.

                    Rebeca sentou-se em um dos balanços e começou a embalar-se devagar; sem tirar os pés do chão. Ficou observando os pimpolhos brincarem na areia úmida.

                    Uma garotinha de cabelos e olhos bem escuros encontrava-se sentada no chão, com um balde amarelo entre suas perninhas e uma pá azul na mão. Enterrava a ferramenta com certa dificuldade, pois seus dedinhos não conseguiam segurar com firmeza o instrumento. Retirava um punhado de areia do solo para, depois, depositá-lo em seu baldinho. Efetuava o procedimento repetidamente e com enorme concentração.

                     Há uns dois metros de distância encontrava-se um menino loiro, que aparentava ser um ou dois anos mais velho que a menina. O garotinho a observava, um pouco acanhado. Em sua mão esquerda, segurava uma pá cor de laranja.

                     Aos poucos o menino foi se aproximando, olhando fixamente para a garotinha que, até o momento, não havia percebido a intenção do loirinho. Somente quando ajoelhou-se à sua frente e cravou a pá cor de laranja na areia, a menina tirou toda aquela concentração e seriedade do rosto e colocou os olhos no menino pela primeira vez.

                      Os dois ficaram se olhando por um bom tempo. O garoto estampava um pedido de aprovação, enquanto a garotinha “analisava-o”, um tanto desconfiada. Rebeca observava a cena, encantada com a pureza daqueles olhares. O menino pegou uma pá cheia de areia e despejou dentro do recipiente amarelo.         

                      A expressão no rosto da menina suavizou-se, iniciando, assim, algo muito maior que simplesmente “encher um balde com areia”. Ali, naquela areia, foi plantada uma relação de cumplicidade e de confiança, regada somente por olhares que transbordavam verdade. Palavras não eram necessárias. Tudo o que precisava ser dito não precisava ser falado.

                     Rebeca ficou deslumbrada com aquela complexa simplicidade de comunicação. Sentiu vontade que, no “mundo de gente grande”, as relações pudessem ser assim. Com certeza muitos baldes poderiam estar cheios, se as pessoas aprendessem a falar menos e a dizer mais. E, principalmente, se resgatassem a pureza e a essência das caixas de areia das pracinhas de sua infância.