Pás

                     O ar despreocupado com que andava e seu olhar distante chamavam a atenção de quem passava por ela. Algumas vezes, os expectadores podiam até presenciar um sorriso sutil em seus lábios.

                     Caminhava contra o vento, que insistia em embaraçar seus cabelos naturalmente embaraçados. A jaqueta jeans não parava no lugar, deixando seu peito desprotegido do frio cortante de meados de julho. Mas ela não se importava. Gostava daquela sensação. Sentia seu coração batendo mais rápido a cada nova lufada de vento que lhe atravessava o corpo. Fechou os olhos e lembrou-se da cena que havia presenciado há minutos atrás.

                    O dia estava nublado e, por isso, não havia muitas pessoas na praça. As poucas crianças que lá se encontravam, pareciam “trouxinhas”, devido à grande quantidade de roupas que, provavelmente, suas mães haviam insistido para que vestissem. Corriam com dificuldade e, muitas vezes, tropeçavam em suas mantas, que arrastavam no chão.

                    Rebeca sentou-se em um dos balanços e começou a embalar-se devagar; sem tirar os pés do chão. Ficou observando os pimpolhos brincarem na areia úmida.

                    Uma garotinha de cabelos e olhos bem escuros encontrava-se sentada no chão, com um balde amarelo entre suas perninhas e uma pá azul na mão. Enterrava a ferramenta com certa dificuldade, pois seus dedinhos não conseguiam segurar com firmeza o instrumento. Retirava um punhado de areia do solo para, depois, depositá-lo em seu baldinho. Efetuava o procedimento repetidamente e com enorme concentração.

                     Há uns dois metros de distância encontrava-se um menino loiro, que aparentava ser um ou dois anos mais velho que a menina. O garotinho a observava, um pouco acanhado. Em sua mão esquerda, segurava uma pá cor de laranja.

                     Aos poucos o menino foi se aproximando, olhando fixamente para a garotinha que, até o momento, não havia percebido a intenção do loirinho. Somente quando ajoelhou-se à sua frente e cravou a pá cor de laranja na areia, a menina tirou toda aquela concentração e seriedade do rosto e colocou os olhos no menino pela primeira vez.

                      Os dois ficaram se olhando por um bom tempo. O garoto estampava um pedido de aprovação, enquanto a garotinha “analisava-o”, um tanto desconfiada. Rebeca observava a cena, encantada com a pureza daqueles olhares. O menino pegou uma pá cheia de areia e despejou dentro do recipiente amarelo.         

                      A expressão no rosto da menina suavizou-se, iniciando, assim, algo muito maior que simplesmente “encher um balde com areia”. Ali, naquela areia, foi plantada uma relação de cumplicidade e de confiança, regada somente por olhares que transbordavam verdade. Palavras não eram necessárias. Tudo o que precisava ser dito não precisava ser falado.

                     Rebeca ficou deslumbrada com aquela complexa simplicidade de comunicação. Sentiu vontade que, no “mundo de gente grande”, as relações pudessem ser assim. Com certeza muitos baldes poderiam estar cheios, se as pessoas aprendessem a falar menos e a dizer mais. E, principalmente, se resgatassem a pureza e a essência das caixas de areia das pracinhas de sua infância.        

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3 comentários sobre “Pás

  1. Fee!!
    Mtu lindo.. e pra variar…

    Feliz Natal e que em 2009 todos que nos rodeiam, e principalmente nós, consigam resgatar a pureza das caixinhas de areia!!

    Bjao

  2. ainda não sei o porquê, mas vejo essa história tendo lugar no litoral, num clima como o de “a favor do vento” do leindecker.

    belíssimo texto, faz questionar sobre quando é que perdemos essa pureza.

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