Banco de Trás

As luzes da cidade rabiscam a moldura da janela do taxi. No banco de trás, encaramos em silêncio aquela figura constantemente em transformação. Verde, amarelo, vermelho. As cores piscam e meus olhos não conseguem formar imagens, somente vultos na madrugada úmida de maio.

Desde que dei meu endereço, o motorista não falou uma palavra – e sou extremamente grata a ele por isso. Sei que ele nos enxerga pelo espelho retrovisor, mas eu não me importo. O julgamento alheio é uma das constantes da vida. Isso não me incomoda mais, pois o que tenho contigo é inevitável; não consigo segurar. Essa noite meu assunto é contigo, aqui no banco de trás.

As garrafas de vinho me impedem de identificar em que rua estamos. Meu corpo e alma não estão em nada do que aconteceu ou vai acontecer fora desse carro. Parece que tudo se resume a esse momento. É agora ou nunca. Tu sussurras no meu ouvido, borra minha maquiagem, bagunça meu cabelo; e meu corpo reage de imediato. Inevitavelmente, acabo soltando um gemido ou outro. Sei que o motorista está acostumado com esse tipo de passageiros na madrugada, mas não me atrevo a olhar para o espelho retrovisor.

Quando finalmente me solto por um segundo de ti, consigo me situar e percebo que estamos a duas quadras do nosso destino final. Mas não estou pronta para desembarcar e, por isso, peço para o motorista dobrar à direita – mesmo sob protestos do profissional -, para ganhar mais tempo. Minha cabeça gira, pois tenho que tomar uma decisão: desembarcar sozinha ou te levar comigo. Tu, no entanto, envolves cada poro da minha pele e começo a aceitar que – na verdade – não tenho escolha. É caso perdido.

Somente quando o carro para em frente ao meu portão e o motorista vira para trás, é que nossos olhos finalmente se encontram. Os dele, bons e generosos, encaram os meus, molhados e vermelhos. Meu queixo treme um pouco e mais um gemido sai pela minha boca; agora um soluço completo, não reprimido como os anteriores. Ele me alcança um lenço e, sem tirar os olhos dos meus, diz: ‘Lute e faça de tudo para não decepcionar a ti mesma, pois é muito provável que todas as outras pessoas que cruzarem teu caminho irão te decepcionar. Tu tens o poder de decidir o que é bom para ti e de abandonar o que te destrói’. Congelo com aquelas palavras e só consigo balançar a cabeça positivamente. Por essa eu não esperava.

Fico ali, encarando-o com os olhos arregalados, tentando absorver as palavras dele. Minha visão turva torna-se nítida rapidamente e posso jurar que ouço o ‘plim’ da ficha caindo dentro da minha cabeça. ‘Eu tenho escolha, afinal! Eu não preciso carregar comigo o que me faz mal. E se eu sei o que me faz bem, não há desculpa para levar um peso nas costas’, penso com meus botões. Estou tão encantada com a descoberta, que tenho vontade de abraça-lo. Constrangido com o silêncio – ele certamente não ouviu o ‘plim’ – e percebendo as minhas intenções afetivas, ele rapidamente se vira para o volante e fala: “São 16 dólares. Dinheiro ou cartão? ”.

Desço do carro e te deixo para trás. Se eu continuasse a te carregar, eu nunca me perdoaria. Deixo ali a mochila de arrependimentos, mágoas e inseguranças que vinha carregando nas costas há anos; um peso que me impedia de ir mais longe. Consigo, finalmente, caminhar mais leve e com a coluna ereta.

A vida é uma viagem cheia de surpresas. Às vezes ficamos dando voltas na quadra, tentando uma vaga para estacionar. Em outras, a nossa música favorita toca no rádio e nos faz dançar no meio de um engarrafamento caótico. Só não esquece, guria, que quem escolhe o teu caminho e segura o volante é tu mesma. Não fica abanando para tentar pegar carona no banco de trás da viagem dos outros. Pega o mapa e traça a tua rota. Ou simplesmente pega a estrada e vê aonde ela vai te levar. Mas não esquece dos ensinamentos do sábio taxista: tu tens o poder de escolher não decepcionar a ti mesma. Enche o teu tanque de amor próprio e determinação que, com certeza, tu vais longe.

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Um comentário sobre “Banco de Trás

  1. Pega o mapa e traça tua rota. Tu tens o poder de escolher não decepcionar a ti mesma. Enche o teu tanque de amor próprio e determinação que, com certeza, tu vais longe. Com tuas lindas palavras, te aconselho.
    Mil beijos da tua Dinda

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