Ontem

Ontem eu levei uma surra e meu peito é o que mais dói hoje. Ontem eu vi o meu passado e um futuro que poderia ter sido meu. Ontem era para ser só mais um sábado ordinário: ressaca matinal, brunch e um cochilo no sofá. Mas não foi e me fez perceber que nunca mais será.

Saí do restaurante com meu enorme prato de bacon, ovos e feijão pesando no estômago. Geralmente eu me arrastaria até o carro e voltaria para casa, mas ontem – ah, ontem! – eu virei à esquerda e caminhei até a orla do rio.

O vento batia na água, criando pequenas ondas na superfície marrom. O céu estava nublado e a única cor que se destacava naquela manhã de outono era o verde do gramado que acompanhava a margem do rio. Continuei caminhando mais um pouco, até que, de repente, senti meu estômago revirar – e não tinha nada a ver com o bacon de meia hora atrás.

Há 10 anos eu não via ‘aquilo’, mas era impossível confundir ou esquecer. Um sorriso que iluminava qualquer dia cinzento e fazia os olhos dela ficarem pequeninhos. Aquele sorriso que vinha do peito e transbordava em cada poro daquela pele macia. Parei tão abruptamente na calçada que quem vinha atrás esbarrou em mim e reclamou algo, mas eu não ouvi.

Me sentei no primeiro banco que encontrei e respirei fundo. Ela ainda estava a uma distância segura; não tinha me visto. Olhei para o chão, pensando se deveria me aproximar. Olhei para ela de novo. Não havia mudado muito desde a última vez em que a vi. Na verdade, apesar de alguns poucos quilogramas a mais e talvez uma mínima ruga no rosto, olhar pra ela fazia com que me sentisse dez anos mais novo. Levantei-me e caminhei, impulsionado pelo mesmo magnetismo inexplicável que sempre nos uniu, em direção a ela.

Foi somente quando abri o portão do playground que ela me viu. Senti seus olhos arregalarem e seus músculos enrijecerem. Aproximei-me com um sorriso e ela relaxou um pouco, abrindo os braços e dando um beijo no meu rosto. Os pelos da minha nuca ficaram em pé quando senti seu cheiro e tive que me afastar rapidamente. Ficamos alguns segundos em silêncio, mas logo quebramos o gelo.

Conversamos amenidades por um tempo, mas não lembro ao certo o conteúdo das palavras trocadas, pois minha cabeça estava em outro lugar, há anos atrás, quando nos conhecemos. Quando eu achava que teria tempo para tudo e que, me prender a alguém era me privar da minha liberdade. Quanta burrice! Agora, com dez anos a menos à minha frente, aqui estou eu, sozinho e acorrentado a uma realidade que se resume a mim e ao meu sofá. Preso aos meus medos.

Uma menina, então, veio ao nosso encontro e agarrou a perna dela. Aquelas mesmas pernas que eu um dia também agarrei, com paixão e devoção. Ela me olhou, me lançou um sorriso tímido e, apesar de seu cabelo ser loiro, eu vi ali uma miniatura da sua mãe. E eu já comecei a amá-la por isso. Assim como comecei, anos antes, a amar a dona daqueles genes que produziam aquele sorriso indescritível. Comecei, mas nunca me permiti ir além.

Fui apresentado à menina como ‘um velho amigo da mamãe’ e ela me cumprimentou, abanando uma das suas minúsculas mãos. Observei o quadro: as duas ali, na minha frente, irradiando algo que eu não conseguia explicar, mas que enchia meu peito com um calor bom. Mas eu não me encaixava naquele quadro. E foi aí que eu senti o primeiro soco: eu não pertencia àquela figura, mas poderia ter pertencido.

A garotinha se aproximou e começou a conversar comigo, enquanto o celular tocava na bolsa da minha ‘velha amiga’. Ela atendeu dizendo “Oi, amor!” e o tom na sua voz era cheio de ternura e carinho. Eu nunca deixei ela me chamar de “amor”. Aquilo me assustava, assim como o que eu sentia por ela. Quando ela desligou, com um “Te amo. Te vejo em casa”, outro soco me atingiu.

‘Em casa’. Engraçado como um pronome possessivo, ou a falta dele, possa fazer tanta diferença. Ela não disse, ‘minha casa’, ou ‘sua casa’. Para eles, só existe uma casa. Enquanto eu, com 40 anos, sempre tive a minha casa e só. Nunca a nossa ou, quem diria, simplesmente “a casa”.

Ela interrompeu meus pensamentos, dizendo que precisava ir embora, mas que tinha sido muito bom me rever. A garotinha, Olivia, acenou mais uma vez e sua mãe apertou minha mão. Eu agradeci em silêncio por não ter sido mais um abraço, pois eu não sei se eu suportaria. Seria nocaute.

Voltei para casa, me afundei no sofá e aqui estou, desde ontem- ou melhor, há mais de 10 anos. Virei a noite repassando o reencontro, as lembranças que permaneciam mesmo depois de uma década e me revirando em arrependimento. Ela compartilhou a cama, a mesa e seus sonhos comigo. Ela se entregou de verdade, me estendeu a mão e me deu a chance de ser aquele que, hoje, escuta “Te vejo em casa” ao telefone. E eu não dei valor.

Ontem eu virei à esquerda e, desde então, tudo mudou. Descobri que ganhei na loteria há 10 anos atrás, mas rasguei o bilhete e joguei fora. Quem me dera saber, naquela época, o que entendi ontem. Se assim fosse, ontem seria diferente.

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