19 Primaveras

                Sabrina encontrou Margarida em uma manhã com cheiro de chuva e com calçadas molhadas. Caminhava lentamente, observando o colorido que suas galochas amarelas davam ao dia que insistia em permanecer monocromático. Odiava aqueles pedaços de borracha que sua mãe insistia em chamar de sapatos, mas, excepcionalmente naquela manhã, a menina até começou a gostar deles.

                Pararam na tabacaria que ficava na esquina. Seu pai comprou o jornal do dia que recém começava e, agora que estava com as notícias em mãos, caminhavam ainda mais devagar entre um parágrafo e outro.

                Foi entre o caderno de moda e o de esportes, no entanto, que Sabrina encontrou-a. Ali, na floricultura da Dona Kátia, a garotinha avistou algo que viria a ser a aquarela de seus dias mais monótonos. Seu pai anunciava que o Grêmio havia vencido mais uma partida, mas Sabrina não queria mais saber; sua atenção já estava sendo canalizada para o objeto que descansava sobre o balcão.

                Aproximou-se aos poucos do vasinho que sustentava as várias florzinhas coloridas; cheias de perfume. Dona Kátia percebeu o interesse da menina e aproximou-se:

                – Olá, Sabrina! Como vai?

                – Oi! Vou bem… – respondeu a garota, com a voz distante e com os olhos vidrados naquele objeto de desejo.

                – Eu também adoro essas flores do campo. – disse a senhora – Parecem novinhas, mas essa já deve ser a sexta primavera que elas florescem.

                – Sexta?! Flor vive tanto tempo assim? – perguntou a menina, espantada.

                – A vida de uma flor só depende da força e do amor que seu jardineiro deposita nela.

               

                Enquanto refletia sobre o que acabara de ouvir, Sabrina retirou de seu bolso os R$ 4,30 que havia economizado durante a semana, decidida a levar o vasinho que transbordava em cores. Decepcionou-se, porém, quando viu que aquela quantia não era suficiente. Dona Kátia, percebendo o olhar desalentado da garota, disse-lhe que levasse o arranjo e cuidasse bem dele.

                A menina não cabia em si de tanta alegria. Agarrou o vasinho com toda a sua força e levou em suas mãozinhas a maior preciosidade que já havia adquirido: uma tímida Margarida.

                Sabrina cuidou com muito carinho de suas flores, mas, com o passar dos anos, muitas delas foram desaparecendo. Algumas foram comidas por formigas, outras não suportaram o frio dos invernos. Margarida, no entanto, permanecia lá, firme e forte, enraizada no lado esquerdo do vaso.

                Quando Sabrina as levou para casa, nem havia reparado naquela florzinha branca, de uma simplicidade ímpar. À medida que as estações passaram, a menina, que agora se tornava mulher, percebeu que Margarida era a mais leal de suas flores.

                Era ela quem lhe exalava um “Bom dia!” pelas manhãs. Ela que ouvia suas confissões, seus medos e seus planos para o futuro. Margarida fazia-lhe rir, sem nem saber por quê. Sua companhia era sempre agradável. E, acima de tudo, a florzinha conseguia decifrar o olhar de sua jardineira.

                Hoje, 19 primaveras depois, a Margarida não é mais tímida. Tornou-se a princesa do vasinho e, a cada ano, torna-se mais forte, mais bonita e mais especial para essa jardineira que com tanto amor a cultiva. Se depender de Sabrina, muitas primaveras ainda virão, (re)florescendo a amizade que nenhum pesticida será capaz de matar.

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5 comentários sobre “19 Primaveras

  1. muito boom! :DDDD
    te amo sis! 😛

    obs: aah! o gremio vnceu mais umaa! 😛
    taa, eu prestei atencao no resto siim! ^^ e amei! 😀

  2. Fe…
    Mais uma vez tu me emocionou…
    Ja te disse, mas nao custa repetir..
    Adoro ler teus textos!!!

    Bjao
    Te amo!!!

  3. chica!!
    q lindo, sem palavras, meus olhos encherem de lágrimas, tá confesso, uma escorreu. =)

    te amo muito!!

    um beijao pra minha jardineira preferida, especial!!!

    gracias, mts saudades!
    beijo
    Margarida!

    AMEI!!

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