Pedestal

  

            Os pingos de chuva ficavam cada vez mais espessos e pesados, aumentando o barulho que faziam ao bater no vidro da janela. Aquele céu azul que havia acordado com o amanhecer do dia, deu lugar a nuvens carregadas. Carregadas de sorrisos e de esperança.

O cheiro de grama molhada pairava pelo ar, fazendo Bianca inalar profundamente aquele odor que tanto gostava, mas que, naquele momento, parecia muito melhor; cheirava a conquista.

 Normalmente costumava ter medo de tempestades. Fechava as janelas e fazia de tudo para evitar olhar a escuridão perturbadora que a cercava. Naquele dia, no entanto, deixou as cortinas bem abertas e ficou observando a dança que as copas das árvores executavam ao ritmo da melodia que o vento assoviava. A iluminação ficava por conta dos raios, que tornavam o show muito mais envolvente.

Bianca grudou o rosto no vidro gelado. Seus olhos brilhavam de desejo. Desejo de fazer parte do espetáculo. Desejo de dançar e extravasar tudo. Não podia conter o que sentia.  

Saiu correndo, porta afora, e afundou seus pés na grama molhada e mal aparada, que já alcançava a metade de suas canelas. Abriu os braços, fechou os olhos e sorriu; um sorriso sincero. Não lembrava a última vez que havia sorrido assim: um sorriso tão bom, que dava até vontade de chorar.

A moça sabia exatamente o motivo daquilo. Enquanto sentia os pingos de chuva fazendo-lhe cócegas e colando a saia do seu vestido rodado em suas pernas, Bianca lembrava-se da noite anterior.

Ainda conseguia enxergá-lo ali, à sua frente, conversando e jogando todo o seu charme para cima dela. Não acreditava no que estava acontecendo. Transbordava de satisfação, mas não podia deixar transparecer para não dar a impressão errada ao rapaz. Quando deitou a cabeça no travesseiro, após a festa, dormiu sem arrependimentos e sonhou como nunca havia sonhado antes.

Agora, encontrava-se ali; encharcada de alegria até a alma e com as esperanças renovadas.

Muitos de vocês diriam: “Isso só pode ser amor!”. Mas não; muito pelo contrário. Era “desamor”.

Há meses Bianca vinha tentando “desamar” aquele que, por muito tempo, brincou com seus sentimentos como um cachorro brinca com seu osso. Enquanto ele a enterrava e desenterrava de seu quintal, sem aviso prévio e nem hora marcada, a moça o conservava em um pedestal alto demais, tornando mais difícil a tarefa de tirá-lo de lá.

Bianca não lembrava ao certo quando foi o momento em que realmente desocupou aquele lugar. Mas o fato é que conseguiu e isso ficou comprovado no momento em que o viu, na festa da noite anterior.

O vento soprou mais forte e fez com que a grama alta roçasse em suas canelas. Bianca sentia-se leve. Não choraria mais à noite, nem sentiria aquele aperto esmagador no peito.

Começou a cantarolar e a dançar. E, definitivamente, cortou o pé do pedestal.

           

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3 comentários sobre “Pedestal

  1. Excelente. Fiquei muito feliz, também, com a atitude e a coragem da Bianca. Ela feliz e o pedestal cortado. Beijo

  2. Conselho para Bianca:

    “Amores nunca acabam, apenas adormecem…”

    Se for amor de verdade pegue a chave da porta em que o pedestal foi colocado e tranque-a… Pois um dia com certeza vais querer entrar lá novamente…nem que seja apenas para admirar um passado bom…

    Esse teu texto me inspirou…

    Muito bom guria!

    Bjo

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