“There’s no place like home”

                  As luvas que envolviam as suas mãos não eram suficientes para esquentá-las do frio daquela manhã cinzenta. O ar gélido que enchia seus pulmões ardia toda a vez que passava por sua garganta.  Carolina já estava arrependendo-se de ter saído de casa. O dia parecia estar tão congelado quanto a neve que havia caído na noite passada. O silêncio chegava a ser mais alto que seus pensamentos. Tudo parecia estar estático, como uma fotografia.

                Enquanto caminhava por entre as árvores “despidas” do parque, Carolina começou a sentir uma dorzinha no peito. Algo que ela sabia exatamente o que era, mas esforçava-se ao máximo para não despertar. Resolvera sair de casa com o intuito de distrair-se, para que aquela sensação não a sufocasse.

                 A dor aumentava gradativamente à medida que as recordações vinham à sua memória. Sentou-se em um banco, procurando acalmar-se, mas percebeu que não poderia mais suportar aquilo.

                Primeiro veio o nó na garganta, seguido de um soluço alto e claro. A moça apoiou a cabeça nas mãos e, a partir daí, seu dia tornou-se ainda mais nublado e molhado. As lágrimas, contidas há dias, jorravam de seus olhos, trazendo-lhe prazer: o alívio. Alívio que, no entanto, não parecia ser capaz de vencer o sentimento que doía em seu peito.

                Sempre sonhara em conhecer o mundo. Desde pequena fazia planos de visitar vários países, conhecer culturas diferentes, aprender novas línguas. Foi por isso que decidiu embarcar nessa aventura. Só não havia planejado uma coisa: a solidão.

                A neve e o frio deixavam tudo ainda mais difícil. Carolina sentia falta de um abraço, de um beijo e de uma conversa amigável. Sentia falta do cheiro de café recém passado, de sua mãe cantando pela casa e do pé de bergamota que havia plantado no quintal. Mas, acima de qualquer coisa, tinha saudade do “isolamento opcional”; de poder escolher entre ficar sozinha ou não.

                Ainda sentada no banco, Carolina, agora, parecia mais calma. Pensou em voltar para o apartamento, mas desistiu, pois não faria diferença alguma; estaria sozinha lá, também. Lembrou-se, então, do que Dorothy disse, em “O Mágico de Oz”. Apesar de ter odiado o filme, pela primeira vez, Carolina teve que concordar com a protagonista: não há lugar como a nossa casa.    

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5 comentários sobre ““There’s no place like home”

  1. Oi, Fernanda! Considerando minha atual situação (hoje marquei a data da minha viagem), não posso dizer que teu texto me soe consolador…
    Contudo, a solidão tem muitas faces e muitas maneiras de ser vista: algumas vezes é mais fácil estar só mesmo tendo companhia e outras vezes mesmo sozinho não se está só; ao mesmo tempo, a solidão não é de todo negativa e muita vantagem dela pode ser extraída. Schopenhauer já dizia que “quem não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre”.

    Ainda assim, adorei o texto! Tu desperta uma reflexão profunda com uma narrativa suave e densa ao mesmo tempo. Muito bom!

  2. Muitas vezes estamos só, tendo companhia. A solidão dói. A saudade faz parte. De saudade eu e o dindo entendemos.
    Parabéns nossa flor!

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