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Lactose-Free

In that maze of trolleys, Sarah finally managed to make her way back to her father carrying a small piece of cardboard wrapped in a hard plastic cover. The package held a little pink lip balm stick with, obviously, one of those Frozen characters printed on it. ‘I only pray bloody Disney don’t make another singing movie’, sounded the grumpy voice in his head. ‘As if it’s not enough to make us play the CD on repeat, they bombard us with merchandise! I’ll go crazy and bankrupt if another of those movies is released!‘.

‘Can I have it, daddy?’ Sarah asked, with a charming smile.

‘Hmmm… I don’t know honey. Do you really need it?’ he replied, even though he knew a 4-year-old wouldn’t know what she needs.

‘I do, daddy, pleeease’ begged the girl.

He stood there, thinking about what to say. In these situations, he would always tell the girl to ‘Go ask her mum’. He knew his wife would never take Sarah to the supermarket and if so, she would terribly avoid the cosmetics and pharmacy section. She would always convince the girl to choose a healthy snack or an educational colouring book – preferably without any Frozen characters in it, which meant that this was his chance to make his daughter happy and piss his wife off at the same time! What a great opportunity!

They were already angry at each other anyway, after that breakfast table argument on the Lactose-free milk, which resulted in him having to do the groceries; ‘So he could pick the damned milk he wanted’. They have been fighting since day one, obviously. Every couple does. However, now it just seemed as if any tiny thing could become a reason for a matrimonial Armageddon. From the laundry powder brand to the colour of her toothbrush. They were both so defensive these days, so suspicious…as if they were only waiting for the other one to pounce.

He hated to think that they were becoming ‘those’ couples. ‘Those’, who sit in a restaurant for hours, without exchanging a word, like complete strangers. ‘Those’, whom the only thing they have in common is their children. However, at the same time, he couldn’t remember how he felt before it all turned into this cold war. His good memories were all vanished and exchanged for angry and tedious ones. Anger was still pumping in his veins.

‘How much is it?’ Jack asked.

‘It’s only $2 dollars…’ said the girl.

‘$2 dollars?! I wish your mother had such cheap taste for makeup…’ mumbled the man, as he agreed to attend to his daughter’s wish.

Sarah held that precious little piece of pink plastic all the way to the car with both hands, amazed with her new acquisition. Jack was wondering what the joy in it was. How could she be so happy because of a lipstick? ‘Women! Complicated since they’re born…‘ he thought, rolling his eyes to the scene.

As they drove back home, Jack could hear the noises of Sarah trying to open the plastic package. He watched her from the mirror, as she forced her tiny hands against the hard plastic cover. She had this habit of sticking her tongue out when she was using all her strength, just like her mother. The thought of his wife brought back the tension of getting back home, to another possible conflict. He could drive in circles all day long if needed, just to avoid that.

‘If I arrive by the time she’s at the gym, I won’t have to even see her. And, by the time she’ll be back, I’ll probably be having a nap on the sofa…‘ Jack’s mind was working full steam ahead ‘Or, maybe, I could just make up a business trip next week and lock myself in a hotel room…Or…wait a minute! What’s that smell?!’.

He got the goosebumps all over his arms and neck, the same way he did when he first felt that scent. It was strawberry. Glittery-pink-sticky-strawberry, to be more precise. The tension, the excitement, the heartbeat raising, the hands sweating. It was as if he had been transported back to that night and was watching it all in slow motion, as he stood at her doorstep to say goodbye. Their eyes met and she shot him a smile. He stepped forward and she didn’t move an inch away. He held her by her waist and ran his fingers through her hair. As their lips touched, they felt as if the ground had disappeared. Driving back home that night, still feeling leftovers of that sticky and glittery lipstick on his beard, he was sure he would marry that strawberry-lips girl one day.

Then, he remembered. The thrill, the excitement, the uncertainties of falling in love. The vision of a brand new future with that person, full of opportunities and new experiences. As he parked in front of the house, he kept asking himself ‘What could be better than that?’. Still trying to find an equivalent moment in his memory’s ‘archived files’, he opened the back door to help Sarah out, as she turned to him, with lipstick all over her face.

‘Do I look pretty, daddy?’ she asked with a smile

He looked at her tenderly, unable to refrain from smiling. ‘You do, honey. Just like Elsa’.

Her face instantly lightened up. She threw her little arms around his neck, gave him a kiss on the cheek and rested her head on his shoulder.

‘I love you, daddy’.

And there it was. Nothing could be better than that. Better than being kissed by the girl you love the most, who is the ‘product’ of the love between you and the woman you love the most. Yes, the lipstick made him realise that he still loved her after all. He walked into the house with anticipation, searching for her. She could sense something unusual when their eyes met. He stepped forward and she didn’t move an inch away. He held her by her waist and ran his fingers through her hair. As their lips touched, they felt as if the ground had disappeared. Jack was, then, sure about one thing: He could drink all the Lactose-free milk in the world if needed, in order to keep those strawberry kisses.

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Banco de Trás

As luzes da cidade rabiscam a moldura da janela do taxi. No banco de trás, encaramos em silêncio aquela figura constantemente em transformação. Verde, amarelo, vermelho. As cores piscam e meus olhos não conseguem formar imagens, somente vultos na madrugada úmida de maio.

Desde que dei meu endereço, o motorista não falou uma palavra – e sou extremamente grata a ele por isso. Sei que ele nos enxerga pelo espelho retrovisor, mas eu não me importo. O julgamento alheio é uma das constantes da vida. Isso não me incomoda mais, pois o que tenho contigo é inevitável; não consigo segurar. Essa noite meu assunto é contigo, aqui no banco de trás.

As garrafas de vinho me impedem de identificar em que rua estamos. Meu corpo e alma não estão em nada do que aconteceu ou vai acontecer fora desse carro. Parece que tudo se resume a esse momento. É agora ou nunca. Tu sussurras no meu ouvido, borra minha maquiagem, bagunça meu cabelo; e meu corpo reage de imediato. Inevitavelmente, acabo soltando um gemido ou outro. Sei que o motorista está acostumado com esse tipo de passageiros na madrugada, mas não me atrevo a olhar para o espelho retrovisor.

Quando finalmente me solto por um segundo de ti, consigo me situar e percebo que estamos a duas quadras do nosso destino final. Mas não estou pronta para desembarcar e, por isso, peço para o motorista dobrar à direita – mesmo sob protestos do profissional -, para ganhar mais tempo. Minha cabeça gira, pois tenho que tomar uma decisão: desembarcar sozinha ou te levar comigo. Tu, no entanto, envolves cada poro da minha pele e começo a aceitar que – na verdade – não tenho escolha. É caso perdido.

Somente quando o carro para em frente ao meu portão e o motorista vira para trás, é que nossos olhos finalmente se encontram. Os dele, bons e generosos, encaram os meus, molhados e vermelhos. Meu queixo treme um pouco e mais um gemido sai pela minha boca; agora um soluço completo, não reprimido como os anteriores. Ele me alcança um lenço e, sem tirar os olhos dos meus, diz: ‘Lute e faça de tudo para não decepcionar a ti mesma, pois é muito provável que todas as outras pessoas que cruzarem teu caminho irão te decepcionar. Tu tens o poder de decidir o que é bom para ti e de abandonar o que te destrói’. Congelo com aquelas palavras e só consigo balançar a cabeça positivamente. Por essa eu não esperava.

Fico ali, encarando-o com os olhos arregalados, tentando absorver as palavras dele. Minha visão turva torna-se nítida rapidamente e posso jurar que ouço o ‘plim’ da ficha caindo dentro da minha cabeça. ‘Eu tenho escolha, afinal! Eu não preciso carregar comigo o que me faz mal. E se eu sei o que me faz bem, não há desculpa para levar um peso nas costas’, penso com meus botões. Estou tão encantada com a descoberta, que tenho vontade de abraça-lo. Constrangido com o silêncio – ele certamente não ouviu o ‘plim’ – e percebendo as minhas intenções afetivas, ele rapidamente se vira para o volante e fala: “São 16 dólares. Dinheiro ou cartão? ”.

Desço do carro e te deixo para trás. Se eu continuasse a te carregar, eu nunca me perdoaria. Deixo ali a mochila de arrependimentos, mágoas e inseguranças que vinha carregando nas costas há anos; um peso que me impedia de ir mais longe. Consigo, finalmente, caminhar mais leve e com a coluna ereta.

A vida é uma viagem cheia de surpresas. Às vezes ficamos dando voltas na quadra, tentando uma vaga para estacionar. Em outras, a nossa música favorita toca no rádio e nos faz dançar no meio de um engarrafamento caótico. Só não esquece, guria, que quem escolhe o teu caminho e segura o volante é tu mesma. Não fica abanando para tentar pegar carona no banco de trás da viagem dos outros. Pega o mapa e traça a tua rota. Ou simplesmente pega a estrada e vê aonde ela vai te levar. Mas não esquece dos ensinamentos do sábio taxista: tu tens o poder de escolher não decepcionar a ti mesma. Enche o teu tanque de amor próprio e determinação que, com certeza, tu vais longe.

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Eles

Ela sempre teve o sorriso frouxo.
‘Exibia’ seus dentes perfeitamente parelhos
para quase todos os que cruzavam seu caminho.
Os primeiros elogios que recebia de um desconhecido
nunca eram a respeito de seu corpo, de seus
olhos ou de seu cabelo. Eles sempre começavam
com “Você tem um sorriso muito bonito”.

Ele sabia fazer piada.
Tinha um senso de humor refinado e quase
sempre arrancava risadas de quem o rodeava.
Não se impressionava muito com sorrisos,
pois já estava acostumado a tê-los ao seu dispor.
Mas um dia isso mudou.

Seus olhos se encontraram e ela sorriu.

Ele gelou. Contou uma piada nervosa.

Ela não entendeu direito, mas riu mesmo assim. E sorriu.

E ele prometeu que faria de tudo para manter aquele sorriso no rosto dela.

Com ele, ela conseguia sorrir com os olhos, sem mostrar nenhum dente ou mover um músculo sequer.
Com ela, ele sentiu o poder de um sorriso vindo do peito, que fazia ouriçar cada pelo do seu corpo.
Ele completava os dias dela e ela iluminava as noites dele.
Ela jorrava e transbordava o mais puro afeto, mas…

…ele não deu pé.

E ela secou.

Hoje os seus olhos se encontraram novamente.

Ele deu um sorriso esperançoso, mas envergonhado, por não ter cumprido sua promessa.

Ela
tentou
sorrir
de volta,
mas a dor
não
deixou.

E, então, ele se afogou em arrependimento…

…no choro daqueles olhos que, um dia,
sorriam para ele.

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Carcaça

Nunca pensei que fosse receber a notícia dessa forma, muito menos nesse lugar. Um homem se aproximou, me entregou um papel e me disse “Ele está morto”. Assim, como se estivesse fazendo um comentário meteorológico; com um tom banal que me inquietou. O mensageiro percebeu minha expressão de ultraje e deu de ombros, como quem diz ‘Ninguém gostava muito dele mesmo. Que diferença faz?’.

O sol estava se pondo, o céu era cor de rosa, e o mar trazia ondas serenas. Atirei-me na areia gelada, rasguei aquela folha e enchi os pulmões de ar para gritar, mas não emiti um som sequer. Meu rosto se contorceu em um choro, mas lágrima nenhuma molhou a areia. Fiquei alarmada; não entendia a falta de reação do meu próprio corpo. Ao invés de sentir um aperto no peito, eu sentia um vazio.

Justo eu, que sempre estive de prontidão para estar perto de ti, hesitei em decidir se pegava um avião para te velar. E não era por receio de te ver morto; por medo de não suportar. Era porque não sabia se tu merecias todo o esforço. Porque, além disso, eu não saberia onde me posicionar na cerimônia: ao lado do caixão? Em meio à multidão? Ao longe, sem que ninguém me notasse? Eu não conseguia entender qual posição eu ocupava na tua vida, muito menos na tua morte.

Uma força, então, – como a de uma mão gigantesca me levantando pela gola da camisa – me fez levitar sobre o quadro. Ali de cima, observando tudo de fora, não conseguia reconhecer aquela mulher jogada na areia. Eu me via confusa, aflita, dividida, insegura. Minha vontade era de sacudir aquela pessoa e de gritar: “ACORDA!”; mas a “mão” continuava a me erguer, mais alto, até que tudo virasse apenas um pontinho na imensidão.

Acordei ofegante, olhei para o lado e – para o meu alívio – te vi dormindo; respirando tranquilamente. Te observei por um tempo, até minha visão ficar turva e sentir as lágrimas quentes escorrendo pelas minhas bochechas. Comecei a recapitular a nossa história, tentando encontrar pistas. Algo que me fizesse entender de onde vinha tudo aquilo, ou melhor, para onde tudo o que era nosso tinha ido. Não achei nada. Somente um filme sem sequência, que seguia a ordem inversa dos avanços tecnológicos: começava vibrante e em HD e terminava aqui – nessa cama – em um mudo preto e branco.

Noite passada sonhei que tu tinhas morrido e despertei para algo morto dentro de mim. Como uma cobra que troca de pele, deixei a carcaça naquela praia. Deixei lá o que não me servia mais; o peso de sentimentos que só me prejudicavam e de incertezas que me faziam andar em círculos. Sequei as lágrimas e levantei, impulsionada pela mesma força que me ergueu enquanto adormecida e que agora, acordada, me colocava novamente firme no chão. Bati a porta atrás de mim e deixei as chaves lá dentro; para não ter perigo de voltar para buscar o que não me prestava mais.

Noite passada meu sonho abriu meus olhos.

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Ontem

Ontem eu levei uma surra e meu peito é o que mais dói hoje. Ontem eu vi o meu passado e um futuro que poderia ter sido meu. Ontem era para ser só mais um sábado ordinário: ressaca matinal, brunch e um cochilo no sofá. Mas não foi e me fez perceber que nunca mais será.

Saí do restaurante com meu enorme prato de bacon, ovos e feijão pesando no estômago. Geralmente eu me arrastaria até o carro e voltaria para casa, mas ontem – ah, ontem! – eu virei à esquerda e caminhei até a orla do rio.

O vento batia na água, criando pequenas ondas na superfície marrom. O céu estava nublado e a única cor que se destacava naquela manhã de outono era o verde do gramado que acompanhava a margem do rio. Continuei caminhando mais um pouco, até que, de repente, senti meu estômago revirar – e não tinha nada a ver com o bacon de meia hora atrás.

Há 10 anos eu não via ‘aquilo’, mas era impossível confundir ou esquecer. Um sorriso que iluminava qualquer dia cinzento e fazia os olhos dela ficarem pequeninhos. Aquele sorriso que vinha do peito e transbordava em cada poro daquela pele macia. Parei tão abruptamente na calçada que quem vinha atrás esbarrou em mim e reclamou algo, mas eu não ouvi.

Me sentei no primeiro banco que encontrei e respirei fundo. Ela ainda estava a uma distância segura; não tinha me visto. Olhei para o chão, pensando se deveria me aproximar. Olhei para ela de novo. Não havia mudado muito desde a última vez em que a vi. Na verdade, apesar de alguns poucos quilogramas a mais e talvez uma mínima ruga no rosto, olhar pra ela fazia com que me sentisse dez anos mais novo. Levantei-me e caminhei, impulsionado pelo mesmo magnetismo inexplicável que sempre nos uniu, em direção a ela.

Foi somente quando abri o portão do playground que ela me viu. Senti seus olhos arregalarem e seus músculos enrijecerem. Aproximei-me com um sorriso e ela relaxou um pouco, abrindo os braços e dando um beijo no meu rosto. Os pelos da minha nuca ficaram em pé quando senti seu cheiro e tive que me afastar rapidamente. Ficamos alguns segundos em silêncio, mas logo quebramos o gelo.

Conversamos amenidades por um tempo, mas não lembro ao certo o conteúdo das palavras trocadas, pois minha cabeça estava em outro lugar, há anos atrás, quando nos conhecemos. Quando eu achava que teria tempo para tudo e que, me prender a alguém era me privar da minha liberdade. Quanta burrice! Agora, com dez anos a menos à minha frente, aqui estou eu, sozinho e acorrentado a uma realidade que se resume a mim e ao meu sofá. Preso aos meus medos.

Uma menina, então, veio ao nosso encontro e agarrou a perna dela. Aquelas mesmas pernas que eu um dia também agarrei, com paixão e devoção. Ela me olhou, me lançou um sorriso tímido e, apesar de seu cabelo ser loiro, eu vi ali uma miniatura da sua mãe. E eu já comecei a amá-la por isso. Assim como comecei, anos antes, a amar a dona daqueles genes que produziam aquele sorriso indescritível. Comecei, mas nunca me permiti ir além.

Fui apresentado à menina como ‘um velho amigo da mamãe’ e ela me cumprimentou, abanando uma das suas minúsculas mãos. Observei o quadro: as duas ali, na minha frente, irradiando algo que eu não conseguia explicar, mas que enchia meu peito com um calor bom. Mas eu não me encaixava naquele quadro. E foi aí que eu senti o primeiro soco: eu não pertencia àquela figura, mas poderia ter pertencido.

A garotinha se aproximou e começou a conversar comigo, enquanto o celular tocava na bolsa da minha ‘velha amiga’. Ela atendeu dizendo “Oi, amor!” e o tom na sua voz era cheio de ternura e carinho. Eu nunca deixei ela me chamar de “amor”. Aquilo me assustava, assim como o que eu sentia por ela. Quando ela desligou, com um “Te amo. Te vejo em casa”, outro soco me atingiu.

‘Em casa’. Engraçado como um pronome possessivo, ou a falta dele, possa fazer tanta diferença. Ela não disse, ‘minha casa’, ou ‘sua casa’. Para eles, só existe uma casa. Enquanto eu, com 40 anos, sempre tive a minha casa e só. Nunca a nossa ou, quem diria, simplesmente “a casa”.

Ela interrompeu meus pensamentos, dizendo que precisava ir embora, mas que tinha sido muito bom me rever. A garotinha, Olivia, acenou mais uma vez e sua mãe apertou minha mão. Eu agradeci em silêncio por não ter sido mais um abraço, pois eu não sei se eu suportaria. Seria nocaute.

Voltei para casa, me afundei no sofá e aqui estou, desde ontem- ou melhor, há mais de 10 anos. Virei a noite repassando o reencontro, as lembranças que permaneciam mesmo depois de uma década e me revirando em arrependimento. Ela compartilhou a cama, a mesa e seus sonhos comigo. Ela se entregou de verdade, me estendeu a mão e me deu a chance de ser aquele que, hoje, escuta “Te vejo em casa” ao telefone. E eu não dei valor.

Ontem eu virei à esquerda e, desde então, tudo mudou. Descobri que ganhei na loteria há 10 anos atrás, mas rasguei o bilhete e joguei fora. Quem me dera saber, naquela época, o que entendi ontem. Se assim fosse, ontem seria diferente.

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Carta de Amor

Meus queridos filhos,

Eu ainda não conheço vocês, mas já os amo. Nunca olhei nos seus olhos, mas às vezes já sinto uma saudade de vocês, como se, de alguma forma, eu só esteja esperando para reencontrá-los. Vocês são um dos meus sonhos e muito do que faço hoje é para que eu esteja preparada para recebe-los no futuro.

Ultimamente venho pensando muito em vocês, pois ando preocupada.

Às vezes parece que quanto mais gente eu conheço, mais sozinha eu me sinto. Parece que as pessoas não conseguem sentir as coisas à sua volta. Parece que os relacionamentos acontecem por conveniência. Parece que ninguém está disposto a abrir mão do seu umbigo. Parece que ninguém se deixa ser vulnerável.

A impressão que me dá é que ninguém se importa. Que as pessoas entram em um marasmo cíclico e desistem; simplesmente acham que a vida é assim e ponto. E ultimamente ando tão apática que tenho medo de ter sido sugada por esse buraco negro da conformidade.

Afeto parece ter se tornado o próximo item em extinção da face da terra. As pessoas parecem não saber como agir quando se deparam com uma demonstração de zelo e carinho. E como é que eu me encaixo em um mundo assim? Eu, que sinto tudo com 120% de intensidade; que tenho necessidade de expressar o que brota do meu peito, principalmente se o sentimento é puro e bom.

Alguns podem achar que sofro mais por ser assim. Talvez estejam certos, mas posso garantir que amo mais também e isso compensa o sofrimento. O amor é a única “coisa” que nos iguala como seres humanos. Independente de religião, raça, classe social: todo mundo ama alguma vez na vida.

Por isso, meus filhos, amem de corpo e alma. Seja o seu cachorro, a sua professora ou a lua. Demonstrem afeto e vocês receberão em troca. Caso contrário, simplesmente tenham a certeza de que, no final, quem perde é aquele que não sabe retribuir, pois não se permite amar, com medo da dor da perda ou da rejeição. Amem, no entanto, acima de tudo e de todos, o reflexo no espelho. E nunca abram mão desse amor, pois é ele que nos move e nos permite amar todo o resto.

O amor é poderoso. Ele transforma, multiplica-se e dissemina-se rapidamente. Eu acredito no poder transformador que ele tem e pretendo provar isso. Vou ensiná-los a amarrar os sapatos, a comer de boca fechada e a decorar a tabuada do 6; mas a minha maior missão é ajuda-los a serem pessoas amáveis, generosas e boas. Nós, eu e vocês, provavelmente não conseguiremos mudar o mundo inteiro, mas, com certeza, mudaremos o mundo à nossa volta.

Nunca esqueçam que vocês têm o meu amor para sempre, desde já.

Um beijo,

Mãe.

 

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36, mas não serve

É amor à primeira vista. O holofote da vitrine destaca aquele par de calçados, ofuscando os demais. Você sente suas pupilas dilatando e o brilho dos seus olhos aumentando. “Eu quero!”, você pensa, “É o sapato mais lindo que eu já vi”. Então, você lembra daquele vestido que vai combinar direitinho e já se enxerga com ele. Caminhando, ou melhor “flutuando”, sob os olhares de admiração de quem passa. Em seus devaneios, você desfila pelas ruas com seus sapatos encantados.

Alguém esbarra em você e te traz de volta para o vislumbre da vitrine. Seu sentimento de amor, agora, se transforma em pânico: “E se não tiver meu número?! E se for muito caro?! E se…”. Você quer muito aquilo, mas ainda não sabe se está ao seu alcance. Com um frio na barriga e as pernas bambas você entra na loja e pergunta se eles têm um par 36 daquele sapato da vitrine. A vendedora diz que aquele é o último par e dirige-se rumo ao objeto desejado para conferir a numeração.

Seu coração para por um segundo. O último par da loja nunca é um bom sinal. A vendedora está de costas e você não consegue ver seu rosto. A ansiedade toma conta e você começa a andar na direção dela. Até que ela se vira, com uma expressão suave e um sorriso: é 36! Seus músculos relaxam e seus batimentos cardíacos lentamente voltam ao normal. Você calça sua nova paixão e dá três passos até a o espelho: perfeito!

“Esse é o sapato da minha vida!”, você pensa. Os outros clientes e a vendedora comentam o quanto aquele modelo é bonito e lhe serve perfeitamente. Alguns até olham com certa cobiça e perguntam à vendedora se existe outro par na loja. Não, esse é o último. E vai ser seu.

Mais uma vez, então, você é tomada pelo medo: “E se for muito caro? Será que eles parcelam em 20x?”. Você caminha os mesmos três passos de volta ao sofá, respira fundo, e cruza a perna esquerda sobre o joelho direito para ler a etiqueta com o preço na sola do sapato. O valor está consideravelmente acima do seu orçamento, mas você está disposta a pagar o preço. Você vai até o caixa abraçada no seu novo amor. Na hora de efetuar o pagamento e vendedora lhe informa que o par tem 50% de desconto. A sua vontade é de pular, gritar e abraçar a moça. Ele tinha que ser seu; estava só te esperando.

Você chega em casa e abre lugar na prateleira para ele, de preferência que fique na altura dos seus olhos, para que você possa admirá-lo de vez em quando. À noite você sai com eles e sente-se maravilhosa. Após uma hora, no entanto, você começa a ver estrelas. De dor.

Não era para ser assim. Na loja eles pareciam tão confortáveis. O brilho nos olhos, o número certo, o desconto…A relação de vocês foi perfeita desde o início. Eles não deveriam estar te machucando assim. Você chega em casa, fica descalça e devolve o sapato à prateleira com uma tristeza no peito; como um amor não correspondido.

Na semana seguinte, teimosa, você dá mais uma chance ao par de saltos agulha. E, novamente, ele te decepciona. Ele, então, continua reinando na prateleira, servindo como objeto de decoração. Você passa por ele todos os dias e aquele amor vai virando mágoa, raiva, ressentimento. Você calça eles mais algumas vezes e fica parada na frente do espelho. Às vezes até arrisca os seis passos imunes à dor, na esperança de que eles tenham milagrosamente melhorado, mas logo eles começam a apertar e você volta a botar os pés no chão. Você fica inconformada. Como pode algo tão bonito te machucar tanto?

Algumas coisas na vida simplesmente não cabem. De nada adianta um sapato lindo, se ele te aperta, te dá bolha e te faz andar de chinelo por três dias seguidos. De nada adianta comer aquele bolo que você adora, se ele vai te dar uma dor de barriga no dia seguinte. De nada adianta um amor, se ele não te respeita e não te deixa firme no chão.

Não vale a pena conviver com o que te machuca. Por isso, guria, pega esse sapato, guarda na caixa e deixa no fundo da prateleira mais alta, longe do alcance dos teus olhos. E continua à procura de um sapato que seja teu número e que, ao mesmo tempo, te sirva.