Esquina dos Corações (re)Partidos

Plec, plec, plec, plec…”

                Salto alto nunca havia sido o forte de Gabriela e agora, mais uma vez, a menina demonstrava sua (falta de) habilidade ao utilizar o “instrumento”. Suas amigas, que apresentavam muito mais destreza em cima dos “andaimes”, caminhavam rápido, obrigando a garota a dar alguns pulinhos de vez em quando para conseguir acompanhar seu ritmo. Para piorar a situação, o sapato estava começando a criar-lhe uma incômoda bolha no calcanhar esquerdo. Tão incômoda quanto o aperto que sentia no peito. E a noite estava apenas começando.

                Uma noite de outubro. Nem quente, nem fria; simplesmente agradável.

                O telefone de Thiago havia tocado há 10 minutos e o garoto já estava pronto para a balada para a qual haviam lhe convidado. Precisava desesperadamente sair; encontrar pessoas. Vestiu a camisa que havia ganhado de aniversário e fez a barba. Olhou-se no espelho: estava pronto. Mas será que estava mesmo?

                Uma buzina soou lá fora e Thiago correu para o carro. E para tentar fugir do que sentia.

                Que droga de sapato apertado! E essa calçada cheia de buracos também não ajuda! Quem me dera eu pudesse vir de pantufas! Ai, não sei por que eu deixo as gurias me arrastarem pra esse lugar. Eu nem queria sair de casa, mas elas sempre me convencem. Nossa! Abriu um barzinho novo… Bem ajeitadinho até. Meu Deus! Que cara mais bagaceiro que “tá” me encarando ali da mesa do boteco. Desvia o olhar, Gabriela! Anda mais rápido! Opa! Cuidado pra não cair do salto e…

            Putz! Esse cara dirige muito mal! Nem sei como que a gente chegou vivo aqui. Bah, hoje eu vou encher a cara. “Tô” precisando. Vou gastar tudo em coisa forte. Nossa! “Tá” quente hoje! Será que eu passei desodorante?! Passei, passei. Ainda bem. Deixa eu pensar: R$70,00, com a dose da tequila a R$10,00 dá pra tomar umas… “Peraí”, 70 dividido por 10 é… Ah… Dá pra ficar bêbado. Olha! Não tinha visto que tinha aberto esse barzinho. Coisa de playboy isso aí. Aposto que…

                Gabriela estava voltando, rumando para o Sul, enquanto Thiago vinha do Leste. No exato momento em que o garoto resolveu mudar seu rumo e seguir em direção ao Norte, a menina cruzou seu caminho. Mais uma vez. E ali, naquela esquina, os dois entenderam o que cada um significava para o outro.

                – Oi. – disse Gabriela, sentindo as pernas vacilarem.

                – Oi. – disse Thiago, desejando nunca ter saído de casa.

                E continuaram caminhando. Cada um na direção que havia escolhido.          

                Droga! Eu senti que ia encontrar ele hoje. Nossa! Ele ainda surte efeito em mim. Respira Gabriela! Ou tu vais ter um ataque cardíaco aqui. Adorei aquela camisa dele… Será que ele vai se encontrar com alguém? E se for? Ai, ai, ai… Eu não “tô” me sentindo muito bem…

            Putz, cara! Eu não devia ter saído de casa. Ela estava tão linda… Deu até pra sentir o perfume dela. Ah, meu! Por que essa guria faz isso comigo? Eu aqui, fazendo de tudo pra esquecer, e ela me aparece toda linda e toda feliz e cheia de amiga solteira. Não posso deixar ela solta assim. Ela é boa demais pra esse bando de bagaceiros que estão por aí. Tenho que ir lá!   

                Depois daquele encontro, Gabriela e Thiago deixaram-se guiar pela força que rege, ilumina e faz os nossos dias valerem a pena. Somente o coração sabe o caminho certo a seguir, mesmo que, às vezes, ele pareça o mais longo. Não importa quantas direções a rosa dos ventos nos ofereça, não cabe a nós decidir onde a estrada acabará.

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2 comentários sobre “Esquina dos Corações (re)Partidos

  1. Estranho o jeito que os dois apesar de estarem separados, tem o mesmo sentimento de remorso pela separação. Nenhum pensa: “Será que ele(a) mudou?”. Nenhum pragueja pelo fato de ter que olhar de novo pra quem lhe incomodou. Nenhum, ao menos, normaliza o encontro a uma banalidade, ou uma piada de mal gosto.

    Leio, logo concluo: Eles nunca se separaram de verdade… Não achas?

    Gostei da história. Boa descrição e ambientação. Quem me dera ter tal habilidade.

  2. Muito gostoso de ler! Simples, mas com profundidade suficiente para nos deixar refletindo sobre alguma coisa da nossa vida! Parabéns Fernanda! Muito bom ler seus textos! Vou ler todos! Abraços!

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