Carcaça

Nunca pensei que fosse receber a notícia dessa forma, muito menos nesse lugar. Um homem se aproximou, me entregou um papel e me disse “Ele está morto”. Assim, como se estivesse fazendo um comentário meteorológico; com um tom banal que me inquietou. O mensageiro percebeu minha expressão de ultraje e deu de ombros, como quem diz ‘Ninguém gostava muito dele mesmo. Que diferença faz?’.

O sol estava se pondo, o céu era cor de rosa, e o mar trazia ondas serenas. Atirei-me na areia gelada, rasguei aquela folha e enchi os pulmões de ar para gritar, mas não emiti um som sequer. Meu rosto se contorceu em um choro, mas lágrima nenhuma molhou a areia. Fiquei alarmada; não entendia a falta de reação do meu próprio corpo. Ao invés de sentir um aperto no peito, eu sentia um vazio.

Justo eu, que sempre estive de prontidão para estar perto de ti, hesitei em decidir se pegava um avião para te velar. E não era por receio de te ver morto; por medo de não suportar. Era porque não sabia se tu merecias todo o esforço. Porque, além disso, eu não saberia onde me posicionar na cerimônia: ao lado do caixão? Em meio à multidão? Ao longe, sem que ninguém me notasse? Eu não conseguia entender qual posição eu ocupava na tua vida, muito menos na tua morte.

Uma força, então, – como a de uma mão gigantesca me levantando pela gola da camisa – me fez levitar sobre o quadro. Ali de cima, observando tudo de fora, não conseguia reconhecer aquela mulher jogada na areia. Eu me via confusa, aflita, dividida, insegura. Minha vontade era de sacudir aquela pessoa e de gritar: “ACORDA!”; mas a “mão” continuava a me erguer, mais alto, até que tudo virasse apenas um pontinho na imensidão.

Acordei ofegante, olhei para o lado e – para o meu alívio – te vi dormindo; respirando tranquilamente. Te observei por um tempo, até minha visão ficar turva e sentir as lágrimas quentes escorrendo pelas minhas bochechas. Comecei a recapitular a nossa história, tentando encontrar pistas. Algo que me fizesse entender de onde vinha tudo aquilo, ou melhor, para onde tudo o que era nosso tinha ido. Não achei nada. Somente um filme sem sequência, que seguia a ordem inversa dos avanços tecnológicos: começava vibrante e em HD e terminava aqui – nessa cama – em um mudo preto e branco.

Noite passada sonhei que tu tinhas morrido e despertei para algo morto dentro de mim. Como uma cobra que troca de pele, deixei a carcaça naquela praia. Deixei lá o que não me servia mais; o peso de sentimentos que só me prejudicavam e de incertezas que me faziam andar em círculos. Sequei as lágrimas e levantei, impulsionada pela mesma força que me ergueu enquanto adormecida e que agora, acordada, me colocava novamente firme no chão. Bati a porta atrás de mim e deixei as chaves lá dentro; para não ter perigo de voltar para buscar o que não me prestava mais.

Noite passada meu sonho abriu meus olhos.

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2 comentários sobre “Carcaça

  1. Lindo Fernanda , faz realmente pensarmos em nossas vidas, se vale a pena,se fizemos certo, se escolhemos certo, se continuamos ou não….. Obrigada

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