Era uma vez…

O relógio marcava quase meia noite e as luzes da cidade passavam rápidas pela janela do carro. No rádio, Chitãozinho e Xororó faziam uma performance capaz de arrebentar-lhes as pregas vocais. Felipe chegava a fechar os olhos, emocionado, toda a vez que a dupla repetia o refrão.  Milena, por sua vez, não via a hora de que aquela tortura acabasse.      

“Ai, meu Deus! O que foi que eu fiz pra merecer isso?”, pensou Milena.

Desde o dia em que havia conhecido Felipe, no casamento de sua prima, acreditava que ele era o homem de sua vida; aquele com quem vinha sonhando desde pequena. Quando o avistou lá na frente, ao lado dos outros padrinhos, Milena sentiu vontade de afogar-se no azul daqueles olhos e desejou que ele também estivesse no altar do seu casamento; mas não com o mesmo propósito daquela ocasião.

            Não conseguiu tirar os olhos daqueles 1,9 m de altura por 1 m de ombros durante toda a cerimônia. Era ele, sim! Era ao lado dele que Milena queria acordar todas as manhãs.

            No primeiro encontro, a garota parecia fora de sua órbita. Estava fascinada com aquele ser. Fazia, secretamente, planos para os dois.

Imaginava-se morando em uma casa grande, em um lugar tranqüilo. Seu quintal era enorme e a grama estava sempre bem aparada. Quatro crianças, três meninos e uma menina, brincavam e puxavam os cabelos umas das outras. Todos os dias, Felipe chegava do trabalho, beijava-lhe e corria pela grama, ao encontro dos filhos. Ele ainda aparentava o mesmo; não havia marcas de idade em seu rosto. Ela também, após quatro partos normais, conservava os mesmos 68 cm de cintura.

Ao longo do tempo, porém, Milena foi percebendo que todas aquelas dimensões, músculos, cabelos loiros e olhos azuis não bastavam. O rapaz tinha tudo o que o figurino de um príncipe encantado exigia, exceto a capa e o cavalo branco. Mas quando Felipe abria a boca o encanto desfazia-se e tudo o que Milena ouvia era o coaxar de um sapo; nada mais.

            Após muito relutar, a moça finalmente tomou coragem e acabou com aquele pseudo-conto de fadas. Chegou a arrepender-se depois, por tê-lo dispensado, mas, à medida que os dias passavam, percebia que o canto sertanejo do sapo não fazia falta na sua rotina.

            O tempo passou e, em um belo domingo ensolarado, Lucas sentou ao seu lado e nunca mais saiu de lá. Ele era bastante diferente do que ela considerava o “homem ideal”, mas possuía todas as qualidades das quais ela carecia e, quando o avistava, o único som que ouvia era o seu coração, batendo em seus ouvidos.

Casaram-se e tiveram dois filhos; um casal. Moraram em um apartamento no centro da cidade, em frente a uma pracinha. Lucas não a beijava todos os dias. Sua barriga sequinha deu lugar a outra, agora saliente, que caía para fora das calças. Milena também engordou um pouco e algumas rugas começaram a surgir nos cantos dos seus olhos. O tempo levou embora sua juventude e a paixão, mas conservou o mais importante: o amor. Sua vida esteve longe de ser como um comercial de margarina. Alguns dias foram bons, outros nem tanto.

E viveram felizes para sempre.

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