Palco

Julieta já estivera naquela situação outras vezes. Sentia sempre a mesma sensação e por isso não entendia por que aquele frio na barriga ainda insistia em alojar-se ali. Suas mãos, que suavam a cada minuto mais, apertavam sua barriga, tentando controlar o enjôo que sentia. Seu consolo era a luz esmaecida do lugar, que permitia que ela sentisse tudo aquilo sem ninguém perceber.

O murmurinho de pessoas falando aumentava gradativamente, à medida que a hora se aproximava. Julieta estava apreensiva. Tudo havia dado certo no ensaio. Nada poderia sair errado.

A sirene soou pela terceira vez e seu coração parou por um segundo. As cortinas começaram a abrir. Julieta respirou fundo e entrou no palco. No momento em que foi cegada pelos fortes holofotes sentiu todo o medo misturar-se com um prazer inexplicável.

O coração batia forte em seus ouvidos, mas as palavras saiam com fluência e ritmo. Suas pernas tremiam levemente, mas seus gestos eram firmes. Sua voz ecoava no teatro silencioso, que prendia todas as suas atenções na mulher que vos falava.

O espetáculo ia muito bem. A platéia reagia aos diálogos e Julieta sentia-se, agora, mais confiante.

Após sua última fala, Julieta encaminhou-se para trás da cortina, de onde esperaria até sua próxima cena. Na metade do caminho, no entanto, enroscou-se em seu vestido comprido e caiu de joelhos no palco.

Houve um silêncio no local. Ninguém sabia se levantava para ajudá-la ou se a deixava erguer-se sozinha.

Julieta sentiu tudo rodar. Seu rosto ficou quente e lágrimas quiseram brotar de seus olhos. A atriz, no entanto, não as deixou saírem. Ao invés disso, levantou-se com um sorriso no rosto e caminhou lentamente, de cabeça erguida, até a coxia.

Fora do alcance dos olhares alheios, Julieta sentiu-se mais tranquila. A vergonha havia ido embora, deixando espaço para a realização.

Estava realizada por ter lembrado suas falas e por ter prendido a atenção da platéia, mas, principalmente, por não ter fraquejado no momento em que algo deu errado. Estava orgulhosa de si mesma, por ter sido corajosa em posicionar-se em frente àquelas pessoas e por ter sido forte o suficiente para erguer sua cabeça novamente.

A vida não nos permite ensaios. Por mais que a planejemos, nunca conseguiremos com que tudo saia exatamente de acordo com o script. Falas serão esquecidas, tombos e rasteiras virão e, muitas vezes, teremos que improvisar a cena. A verdadeira arte está em conseguir, apesar dos imprevistos, fazer da sua vida um espetáculo inesquecível.

“Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”. – Charles Chaplin.

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7 comentários sobre “Palco

  1. É verdade.. Com certeza esse é o nosso maior desafio, mas não podemos esqucer que o espetáculo tem que ser inesquecível para nós mesmos e não para os outros.. O q tb é um desafio e tanto.. heheeh
    Mtu bom teu texto Fê.. Amo eles e tu de paixão.. heheh

    Bjao

  2. Lindo, Fê, como sempre!
    Não poderia ter descrito melho as etapas da vida de forma diferente! ^^
    Parabéns, e obrigada por ter me avisado do novo post.
    Adoro teus textos!

  3. Parabens

    Espero que tu reajas na vida como tu escreve, e muito facil planejar e escrever o dificil realmente e sempre ter em mente que temos que levantar que amanha as coisas vao dar certo

    mais uma vez muito bom

    pai

  4. Com certeza, esse é o caminho. Parabéns, filha, mais uma vez escreveste de forma simples, clara e verdadeira.
    Te amo
    Mãe

  5. Yep!

    Não podemos no sprender aos fracassos. Eles virão e também virão as vitórias. O segredo está em valorizar as coisas boas.

    Rolou um stress?
    Pare e pense: isso fará diferença na minha vida daqui há um ano?
    Se não for fazer, pra que se estressar?
    Se for, faça uma cara de mau e va pra cima. depois da luta fica a marca do orgulho de ter passado por ima de mais um obstáculo.

    Sem os tombos e o perigo de cair, encenar não teria graça nenhuma.
    Risco e retorno.

  6. Fernanda, Fernanda…

    Das falas ensaiadas e dos movimentos calculados. “Sua posição é essa, depois tu vens para cá e faz exatamente o que deves fazer. NÃO se esqueça das tuas falas!”
    E então a surpresa:
    Uma fala não ensaiada. Em meio a uma apresentação. Teus pais estão lá. Os meus também. Improviso. Uma tentativa de ser criativo.
    Seu olhar é de incrédula. A tua próxima fala é incoerente com o que eu acabei de falar. Mas seria a próxima fala se eu tivesse acertado a minha. Com um pequeno sorriso de derrotado, falo exatamente o que devo falar (um sorriso que seria para esconder o fato de que só lembrei do que deveria fazer por tua causa).
    Aprendemos a atuar juntos. Em um ótimo grupo. E improvisamos juntos. Tenho certeza que apesar da perfeição das tuas falas, tiveste que (diferente do caso anunciado) improvisar em vários dos meus esquecimentos , tombos e desmanches de picareta. E posso afirmar: “Sabemos improvisar! Estamos prontos! Estamos aqui!”.
    Amigos aprendem juntos. Se ensinam. Misturam os seu conhecimentos. O Criativo e a Ensaiada. O Esquecido e a Certinha. Contracenando. Brigando. Evoluindo. Assim lembro de ti de um jeito especial por esse momento. Do mesmo modo como lembro de cada um dos nossos colegas.
    Não vou e nem posso, esquecer desses momentos. Todos eram pessoas especiais. Mesmo longe lembro de vocês.
    Se um dia eu virar professor como planejo, o quadro vai ser mais um dos meus palcos. E vou por todas as minhas 7 mascaras a disposição para continuar a peça. Infinita e finita peça. E lá vais estar tu e os outros! Ao meu lado! Em minha memória.
    Eu perambulo em pensamentos aleatórios. Mas não posso deixar de expressar o quando o ponto de vista que a Srta. expressa me atinge profundamente.

    Um enorme de um abraço pra ti e um beijo prolongado pra deixar ciúmes no namorado (mas na bochecha, claro).
    Ainda vamos nos encontrar, tomar chimarrão e rir dos mesmo fatos de sempre.
    Tudo de bom e desculpe pela demora para postagem.

    Ahhh, claro… ótimo texto.

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