36, mas não serve

É amor à primeira vista. O holofote da vitrine destaca aquele par de calçados, ofuscando os demais. Você sente suas pupilas dilatando e o brilho dos seus olhos aumentando. “Eu quero!”, você pensa, “É o sapato mais lindo que eu já vi”. Então, você lembra daquele vestido que vai combinar direitinho e já se enxerga com ele. Caminhando, ou melhor “flutuando”, sob os olhares de admiração de quem passa. Em seus devaneios, você desfila pelas ruas com seus sapatos encantados.

Alguém esbarra em você e te traz de volta para o vislumbre da vitrine. Seu sentimento de amor, agora, se transforma em pânico: “E se não tiver meu número?! E se for muito caro?! E se…”. Você quer muito aquilo, mas ainda não sabe se está ao seu alcance. Com um frio na barriga e as pernas bambas você entra na loja e pergunta se eles têm um par 36 daquele sapato da vitrine. A vendedora diz que aquele é o último par e dirige-se rumo ao objeto desejado para conferir a numeração.

Seu coração para por um segundo. O último par da loja nunca é um bom sinal. A vendedora está de costas e você não consegue ver seu rosto. A ansiedade toma conta e você começa a andar na direção dela. Até que ela se vira, com uma expressão suave e um sorriso: é 36! Seus músculos relaxam e seus batimentos cardíacos lentamente voltam ao normal. Você calça sua nova paixão e dá três passos até a o espelho: perfeito!

“Esse é o sapato da minha vida!”, você pensa. Os outros clientes e a vendedora comentam o quanto aquele modelo é bonito e lhe serve perfeitamente. Alguns até olham com certa cobiça e perguntam à vendedora se existe outro par na loja. Não, esse é o último. E vai ser seu.

Mais uma vez, então, você é tomada pelo medo: “E se for muito caro? Será que eles parcelam em 20x?”. Você caminha os mesmos três passos de volta ao sofá, respira fundo, e cruza a perna esquerda sobre o joelho direito para ler a etiqueta com o preço na sola do sapato. O valor está consideravelmente acima do seu orçamento, mas você está disposta a pagar o preço. Você vai até o caixa abraçada no seu novo amor. Na hora de efetuar o pagamento e vendedora lhe informa que o par tem 50% de desconto. A sua vontade é de pular, gritar e abraçar a moça. Ele tinha que ser seu; estava só te esperando.

Você chega em casa e abre lugar na prateleira para ele, de preferência que fique na altura dos seus olhos, para que você possa admirá-lo de vez em quando. À noite você sai com eles e sente-se maravilhosa. Após uma hora, no entanto, você começa a ver estrelas. De dor.

Não era para ser assim. Na loja eles pareciam tão confortáveis. O brilho nos olhos, o número certo, o desconto…A relação de vocês foi perfeita desde o início. Eles não deveriam estar te machucando assim. Você chega em casa, fica descalça e devolve o sapato à prateleira com uma tristeza no peito; como um amor não correspondido.

Na semana seguinte, teimosa, você dá mais uma chance ao par de saltos agulha. E, novamente, ele te decepciona. Ele, então, continua reinando na prateleira, servindo como objeto de decoração. Você passa por ele todos os dias e aquele amor vai virando mágoa, raiva, ressentimento. Você calça eles mais algumas vezes e fica parada na frente do espelho. Às vezes até arrisca os seis passos imunes à dor, na esperança de que eles tenham milagrosamente melhorado, mas logo eles começam a apertar e você volta a botar os pés no chão. Você fica inconformada. Como pode algo tão bonito te machucar tanto?

Algumas coisas na vida simplesmente não cabem. De nada adianta um sapato lindo, se ele te aperta, te dá bolha e te faz andar de chinelo por três dias seguidos. De nada adianta comer aquele bolo que você adora, se ele vai te dar uma dor de barriga no dia seguinte. De nada adianta um amor, se ele não te respeita e não te deixa firme no chão.

Não vale a pena conviver com o que te machuca. Por isso, guria, pega esse sapato, guarda na caixa e deixa no fundo da prateleira mais alta, longe do alcance dos teus olhos. E continua à procura de um sapato que seja teu número e que, ao mesmo tempo, te sirva.

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