Fruto Proibido

             O verão vinha sendo massacrante naquele ano, principalmente para os que, ao contrário da maioria, permaneciam na cidade. Do sofá da sala, onde se encontrava atirada, Catarina olhava a janela e abanava seu rosto com o último exemplar da revista Super Interessante. Reparava que as folhas das árvores estavam estáticas. Seus galhos não haviam  mexido um tantinho sequer desde que se deitara ali. Um passarinho cantava alegremente e a moça teve vontade de arrancar o pescoço daquele animalzinho irritante. Mas, na verdade, o que sentiu foi inveja de toda aquela felicidade e liberdade.

            Levantou-se com muito esforço e foi para a cozinha. Pegou um copo no armário e abriu a geladeira, para pegar a jarra de água. Ao agarrar a jarra, olhou para a prateleira gelada e estacionou seus olhos em algo inusitado, que se encontrava ali, atrás do pote de margarina.

            Não fazia idéia de como aquilo tinha ido parar na sua geladeira. Mas tinha a certeza de que estava à sua espera; aguardando o momento em que ela abrisse a porta e a encontrasse.

            Desistiu da água. Largou a jarra e pegou em suas mãos a razão do brilho nos seus olhos: um pedaço de melancia.

            A garota ficou apreciando o “fruto proibido”.

            Durante toda a sua vida, diziam-lhe para ter cuidado; que melancia era uma fruta muito “perigosa”. Não se podia misturá-la com leite. O que acontecia se o fizesse ninguém sabia ao certo, mas optavam por não arriscar.

            Catarina só havia experimentado uma vez. Sua mãe relutou, mas, após muita insistência da menina, tirou as sementes, cortou a fruta em pedacinhos, colocou-os em um prato que entregou à menina, junto com um garfo e um guardanapo. O problema era que a garota não queria daquele jeito. Queria comer com as mãos; igual à Magali, nas histórias em quadrinhos.

            A mãe ficou ultrajada quando ouviu isso: “Onde já se viu?! Uma menina educada não come dessa maneira. Agora trata de comer isso aí e cuida pra não pingar na tua roupa!”. Graças a essas e muitas outras “exigências” da mãe, Catarina havia desenvolvido uma habilidade fantástica em comer sorvete sem derramar uma gota no chão. Sabia também que uma mocinha, como sua mãe lhe chamava na infância, devia cuidar para não se sujar enquanto brincava e que devia sempre portar-se adequadamente.

            Ali, encarando o pedaço que sorria para ela, Catarina sentiu que havia chegado a hora de deixar a mocinha para trás e de começar a comer melancia à sua maneira.

            Sentou-se no degrau da varanda de sua casa, olhou uma última vez para aquele contraste do vermelho e do verde e mergulhou na fruta. Gotas daquele suco escorriam pelos cantos da sua boca e desciam até o seu pescoço. Seu nariz, seu queixo, suas roupas, suas mãos…tudo agora tinha o doce gosto da liberdade. Agora entendia porque o passarinho cantava daquele jeito. Naquele momento, a mesma melodia passou a tocar em sua cabeça.

            A partir daquele dia, a melancia passou a ser um item fundamental em sua geladeira. Comia sempre “à la Magali“. Em algumas ocasiões engasgava-se com as sementes, em outras apenas as engolia ou as cuspia fora. Às vezes a fruta estava verde, mas comia do mesmo jeito, pois sabia que, da próxima vez, o sabor seria diferente. Até experimentou tomar leite junto, uma vez. Sentiu-se um pouco estranha. Mas sobreviveu. E viveu.

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5 comentários sobre “Fruto Proibido

  1. Muuiittooo bom! Gostei de todo o texto, mas quando tu descreves a raiva da Catarina com o passarinho e reconhecimento que era inveja dele,foi muito bom.
    até o próximo.

  2. Com certeza comer melancia com a mão tem um gosto diferente, é mais gostoso!

    E o melhor ainda é sobreviver aos mitos das avós, ainda bem que ela não resolveu tomar um banho de piscina depois da melancia.

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